Saldo da balança agrícola é menor este ano
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de outubro de 2000
Eduardo Magossi Agência Estado 
A agricultura deverá reduzir sua contribuição, em 2000, para a construção de um saldo positivo para a balança comercial. O saldo da balança comercial agrícola de 2000 será bem menor do que o esperado inicialmente e menor até que o saldo registrado em 1999, segundo estudo divulgado pela Tendência Consultoria.
A expectativa é de que o saldo da balança agrícola (incluindo papel e celulose) termine 2000 em US$ 12,23 bilhões. O número é menor em 17,3% aos US$ 14,8 bilhões estimados pela mesma consultoria em julho e inferior em mais de 25% aos US$ 16,4 bilhões esperados pelo governo.
O número também é inferior ao saldo agrícola de US$ 12,75 bilhões registrados em 1999. Segundo o analista Fábio Silveira, da Tendência Consultoria, vários fatores contribuíram para a retração do saldo da balança comercial agrícola e todos foram resultado do esforço do País em aumentar suas exportações de commodities ou agregar valor a elas. Se até o final do primeiro semestre de 2000 a expectativa era de que o saldo agrícola registrasse um pequeno aumento em relação ao de 1999, agora esta esperança não existe mais, disse.
Preços commodities Silveira explicou que, em algumas commodities, a idéia de que aumentar as vendas é sinônimo de maior receita não funcionou. Ao mesmo tempo que o volume de vendas crescia, os preços dos produtos recuavam, fazendo com que a receita obtida fosse decepcionante.
Além disso, ressalta Silveira, a política equivocada do governo em reter as exportações do café foi desastrada tanto para o setor cafeeiro como para a balança do agribusiness.
O Brasil reduziu suas exportações de café em 20% numa tentativa de impulsionar os preços internacionais do produto, disse. Além de não conseguir elevar os preços, a descrença do mercado no plano de retenção fez os preços do produto recuarem para seu menor nível em oito anos. E o que é pior: o Brasil perdeu participação de mercado para os asiáticos, que aproveitaram a menor oferta brasileira para inundar o mercado com o seu café, disse.
A expectativa da Tendência Consultoria é de que o saldo das exportações e importações de café termine 2000 em US$ 1,64 bilhão, um volume 30% inferior aos US$ 2,35 bilhões registrados em 1999. No caso das exportações de carnes bovina e de aves, o saldo vai ficar praticamente inalterado em relação ao ano anterior. O superávit do setor de carnes deverá ficar em US$ 1 48 bilhão, ante US$ 1,44 bilhão no ano passado.
O problema é que o governo esperava um saldo de mais de US$ 2 bilhões e isto não se concretizou, afirmou Silveira. O problema, segundo o analista, ficou no fato de o setor ter inundado o mercado internacional com carne de origem bovina e de aves do Brasil. Houve muita oferta e os preços caíram, disse.
Açúcar A quebra da safra de açúcar também contribuiu para o recuo da balança agrícola. Com uma safra menor, decorrente da estiagem que atingiu o País no início do ano, o produtor de açúcar cortou suas exportações e deu prioridade ao mercado interno, que estava com preços melhores. O Brasil reduziu suas exportações em até 5 milhões de toneladas e, com isso, o saldo açúcareiro estimado para 2000 é de US$ 1,14 bilhão - queda de 42% ante o US$ 1,96 bilhão registrados em 1999.
Segundo Silveira, o complexo soja foi o único a apresentar um aumento em seu saldo comercial, de US$ 3,61 bilhões em 1999 para US$ 4 bilhões esperados em 2000. O volume exportado aumentou e a receita apenas não foi maior devido aos preços mais deprimidos decorrentes de uma grande safra de soja norte-americana, disse.
Trigo/geada A quebra da safra de trigo do Paraná, decorrente das geadas que atingiram a região, também afetará o saldo agrícola em cerca de US$ 100 milhões. O Brasil vai aumentar suas importações de trigo em US$ 100 milhões, passando de US$ 820 milhões em 1999 para US$ 920 milhões neste ano, explica.
O analista afirma, contudo, que a redução do saldo agrícola deve ser revertido em 2001. A expectativa é de que a balança do agribusiness termine 2001 em US$ 13,86 bilhões, alta de 13% em relação ao número deste ano. A previsão de 2001 está baseada no aumento das exportações de açúcar, de carnes, de soja e café. O próximo ano será mais positivo para a agricultura, disse.
Para a Sociedade Rural Brasileira e Confederação Nacional da Agricultura este é um dos piores resultados da balança. Mas, ao mesmo tempo, o podria ter sido uma boa fase para aumentar o superávit da balança comercial através da agricultura. O País não soube aproveitar as boas oportunidades oferecidas pelo mercado, apesar do preço das commodities ter recuado no mercado internacional.


