Salário vai perder poder de compra até o final do ano
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sábado, 18 de julho de 1998
Agência Estado 
A previsão do governo de que a economia crescerá apenas 2% este ano levou especialistas a trabalhar com a expectativa de que os salários, já em queda, vão perder ainda mais poder de compra até dezembro. A dúvida fica apenas no grau de encolhimento dos ganhos dos trabalhadores - os do setor formal serão os mais afetados. O impacto pode ser menos drástico se o cenário internacional melhorar a ponto de alterar um pouco a evolução do PIB.
Um aumento da renda está fora de cogitação, segundo pesquisadores do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), pois exigiria pelo menos mais dois pontos porcentuais de crescimento da economia. E nenhuma previsão aponta para isso.
Apesar das medidas tomadas pelo governo, entre as quais a da redução do IOF, a economia vai continuar crescendo pouco, afirma o coordenador de produção técnica do Dieese, Antônio Prado. Na verdade, essas medidas só impedem que a economia tenha um crescimento negativo, mas não provocarão um crescimento significativo do Produto Interno Bruto (PIB), que deve ficar em 1,5% e 2%. E isso significa que o crescimento do salário vai ficar estagnado e com tendência a cair um pouco mais, principalmente porque o nível de desemprego vai permanecer elevado.
Se o País quiser evitar redução do poder de compra terá de agir rapidamente, porque a queda na renda será rápida, diz o professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), além de pesquisador da FIPE, Hélio Zylberstajn.
O problema é que o prejuízo futuro recairá sobre uma realidade que já é de perdas. De abril do ano passado a março deste ano, assalariados com carteira assinada tiveram ganhos reais reduzidos em 4,7% na Grande São Paulo. Na comparação entre os meses de março, a redução foi maior: este ano, os empregados ganham 6,2% menos do que no mesmo período de 1997. Há um ano, assalariados formais chegaram a ter rendimento médio real de R$ 931,00. Hoje, eles ganham R$ 873,00.
Os dados são do convênio Seade-Dieese e, segundo o coordenador Antônio Prado, refletem o resultado de um danoso binômio, o de épocas de baixa evolução do PIB: desemprego e rotatividade. Historicamente, toda vez que a economia cresce de forma expressiva, os salários se recuperam, e quando a economia cresce pouco, os salários caem, afirma Prado. Isso nos leva a pensar que este ano, com previsões de que o PIB cresça apenas 2%, ou até menos, a renda do empregado tende a continuar caindo.
A previsão de crescimento de 2% é do secretário de Política EconÔmica do Ministério da Fazenda, Amaury Bier, e coincide com a expectativa de boa parte dos analistas ligados ao setor privado. A secretária-adjunta de Política Econômica, Julieda Puig, admitiu à Agência Estado que há uma frustração, entre aspas, quanto à trajetória de crescimento econômico, mas considera temerário tomar decisões à luz dos dados que se têm hoje, sem esperar a maturação dos efeitos das medidas já adotadas, como a redução, pela metade, dos juros.
Segundo Julieda, a redução do IOF ajudaria a manter a projeção de crescimento de 2% do PIB em 98. No ano passado, a economia cresceu mais: 3%, que também foi muito pouco e determinou a trajetória decrescente da curva de salários.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, a rotatividade de empregados, que sempre foi alta, agora saiu do nível clássico dos anos 80, de um terço da mão-de-obra empregada. No ano passado, alcançou a marca de 38%. Ou seja, é como se em apenas cerca de dois anos e meio toda a mão-de-obra do País tivesse mudado de emprego. A lógica é de que as trocas compulsórias trazem quase sempre redução de salário. Reverter isso é difícil num momento em que o poder de barganha dos sindicatos foi reduzido junto com a oferta de postos de trabalho.
A grande questão, para Hélio Zylberstajn, pesquisador da FIPE, é saber em que segmento o ajuste de salários será mais violento. Em princípio, acredito ue os candidatos mais prováveis a sofrer os prejuízos sejam os assalariados com carteira assinada, prevê. Ou seja, aqueles que têm maior peso no custo das empresas. E que, em compensação, sustentam todo o sistema oficial de previdência, saúde, arrecadação de impostos de pessoas físicas e estruturas de desenvolvimento social.


