O presidente de honra do PT e provável candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, derrubou ontem, com uma única frase, um princípio defendido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) durante seus quase 15 anos de existência: o de que salários não podem ser reduzidos.
Referindo-se à situação na Volks, que quer reduzir em 20% salários dos seus 23 mil empregados durante três meses, Lula afirmou para mais 10 mil metalúrgicos, durante manifestação em São Bernardo do Campo, que aceitar salário menor seria possível, desde que em troca de um ano de estabilidade no emprego.
A montadora ameaça demitir 10 mil empregados se o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC não aceitar a redução. ‘‘Com um ano de estabilidade garantida, aí a gente vai negociar’’, disse Lula, que pediu ‘‘decência’’ da Volkswagem na hora de conversar com sindicalistas e disse que não estava propondo nada, apenas ‘‘lançando um desafio’’.
Embora estivesse quebrando um tabu, a fala de Lula não causou nenhum alvoroço. O presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Ricardo Berzoini, também da CUT, disse que o movimento sindical tem dois princípios hoje: negociar e consultar a base. ‘‘Numa negociação não existe nenhum aspecto que seja intocável, desde que do interesse do empregado’’, disse. ‘‘Mas é necessário que a negociação se dê em torno de propostas que tenham equilíbrio, que favoreçam as duas partes e não fragilizem o trabalhador.’
Sindicalistas apontam a falta de garantia no emprego por longo período e a generalização de acordos como os dois principais problemas do acordo firmado pela Força Sindical com as empresas de autopeças. O próprio Lula lembrou que em caso de salários baixos, como a das empresas de autopeças, a redução de 10% nos salários não é saída. ‘‘Descontar 10% do salário de quem ganha R$ 300 chega a ser ridículo’’, afirmou. O acordo da Força Sindical prevê estabilidade por apenas cinco meses.
O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, Heiguiberto Navarro, também apontou problemas na redução de salários, quando não há estabilidade garantida por longo período. Segundo ele, as empresas podem ‘‘fazer caixa’’ para demitir mais tarde, já prevendo despesas extras com pagamento de direitos trabalhistas.

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