Arquivo FolhaRendimento do trabalhador na indústria ganhou força a partir do RealOs preços dos produtos industriais tiveram uma queda de 17% nos três anos do Plano Real, segundo informação prestada ontem pelo diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Bóris Tabacof. Com relação aos salários, Tabacof disse que em julho deste ano o salário médio real na indústria paulista estava 27% acima do registrado no início do plano de estabilização. ‘‘Isso mostra que num sistema de liberdade de preços e salários é possível elevar níveis de salário real sem a presença de qualquer política salarial’’, afirmou.
Ao participar do Fórum de Transformação da Economia, na Comissão de Economia, Indústria e Comércio da Câmara de Deputados, o diretor da Fiesp explicou que esses resultados foram obtidos porque as empresas se tornaram mais competitivas para sobreviver à concorrência externa. A competitividade, informou, pode ser identificada na redefinição das linhas de produção, na redução dos níveis hierárquicos, na terceirização e no aumento da qualidade dos produtos. O processo de reestruturação das empresas também foi responsável pela redução do número de empregados, explicou.
O diretor da Fiesp explicou que as medidas de ajuste foram acompanhadas por aumento nos investimentos para complementar o processo de modernização. Como exemplo da busca pela modernização, ele disse que nos três últimos anos a importação de bens de capital subiu mais de 200%. Ao mesmo tempo, as empresas buscaram parceiros internacionais e nacionais para obter ganhos na economia de escala, o que rsultou em muitas fusões.
Na avaliação da Fiesp, apesar do esforço da indústria para se tornar competitiva, não houve uma contrapartida na criação de um ambiente econômico competitivo no País. Tabacof afirmou que os juros reais elevados, os impostos em cascata e deficiência na infra-estrutura continuam impondo custos adicionais às empresas. Soma-se a isso a atual política cambial de valorização do real, que vem se agravando com a valorização do dólar frente às moedas européias e ao iene.
Para o diretor da Fiesp, o Plano Real também não apresentou ainda resultados equivalentes com relação à expansão do Produto Interno Bruto (PIB). O crescimento de 2,9% em 1996 e 3,5% a 4% previstos para o PIB este ano são insuficientes para o Brasil que mantinha um taxa histórica de crescimento - do pós-guerra até 1980 - de 7% ao ano. ‘‘O grande desafio do Real é o de como passar da estabilidade para o crescimento’’, alertou. Essa transição, na opinião dele, deve ser feita considerando a integração internacional, a presença dos produtos importados, liberdade de preços e livre negociação de salários.
Tabacof alertou ainda para a necessidade de o País ampliar suas fontes de financiamento aos investimentos. Como exemplo para aumentar a poupança privada, ele citou a Previdência Social que, se funcionasse pelo regime de capitalização, seria disputada pelos projetos de longo prazo. ‘‘O crédito não depende mais só dos bancos na maioria dos países’’, afirmou. Segundo ele, nos Estados Unidos apenas 20% dos recursos para investimentos são tomados junto a instituições bancárias. Os 80% restantes vêm de outras formas de capitalização.
CNI O vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Antonio Fábio Ribeiro, que falou em nome do presidente da entidade, senador Fernando Bezerra (PMDB-RN), disse que para a entidade o desequilíbrio no setor externo e nas contas públicas continua sendo uma das principais preocupações com relação à consolidação do Plano Real.‘‘A deterioração do déficit em conta corrente (saldo entre o pagamento e recebimento de todo o comércio de bens e serviços do País, incluindo juros) reflete a operação de duas forças: aprofundamento da integração à economia mundial e estabilização com forte ênfase na âncora cambial’’, afirmou.
Ribeiro disse que é preciso criar condições de competitividade para garantir o crescimento das exportações, único meio, segundo ele, de obter o equilíbrio das contas externas no longo prazo. Nesse sentido, destacou a necessidade de realização da reforma tributária para acabar com o excesso de taxas e impostos que oneram a produção. Alertou, contudo, que existem medidas que não dependem de emenda à Constituição, como a referente ao prazo de recolhimento dos impostos que ainda segue um modelo implantado durante a inflação elevada.

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