Salada a preço de banana
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 
Depois de um ano repleto de problemas climáticos que geraram quebra de safra e alta dos preços, o valor de frutas e verduras apresentou uma queda histórica nas centrais de abastecimento pela superprodução. Em alguns casos, o valor ficou mais baixo em janeiro do que no mesmo período de 2015 e o reflexo direto apareceu principalmente no descarte de tomate e de batata em várias regiões produtoras do Paraná, porque o gasto com colheita e transporte não cobriria os custos.
No balanço anual, entretanto, é preciso salientar que houve redução na quantidade comercializada e aumento no valor total. O 1º Boletim Prohort de Comercialização de Hortigranjeiros nas Centrais de Abastecimento (Ceasas), desenvolvido pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aponta que houve queda de 3,35% no volume vendido nas Ceasas e alta de 14,63% na receita de produtos in natura na comparação entre 2015 e 2016.
O entreposto de Londrina teve a maior diminuição de quantidade da Região Sul, com variação negativa de 7,41%, e o terceiro maior crescimento de receita, com 22,62%. Em Curitiba, os resultados foram de menos 4,59% no volume e de mais 22,05% em valor.
De acordo com a Conab, parte da explicação pelo menor consumo dos produtos está na crise econômica pela qual o País passa. Com a renda pressionando, os brasileiros têm mudado hábitos alimentares e os altos preços praticados durante ciclos de quebra de safra tiraram do prato alguns dos produtos mais comuns ao paladar nacional, explica o técnico da companhia e professor de economia rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Eugenio Stefanelo. "A batata, a cebola e o tomate são produtos que ficaram com preços bastante altos com a quebra de safra por excessos de chuva, seca ou geadas, o que fez com que produtores intensificassem o plantio, que tem ciclo de curto prazo, e levou a uma superprodução no início do ano", explica.

Apodrecer no pé
Somente em um mês as quedas de preços foram de 43,49% para a batata e de 14,77% para o tomate, segundo o Prohort. Ainda, outros produtos que não são analisados regularmente pelo boletim perderam valor, como o espinafre (-42%), a batata-doce (-28%), o jiló (-26%), a berinjela (-24%) e o quiabo (-22%), entre outros.
O técnico da Conab afirma que o preço da caixa de tomate bateu em R$ 10 para o produtor, o que não remunera o trabalho de colheita e faz com que muitos deixem até o fruto apodrecer no pé. No caso da batata, o preço pago no Paraná chegou a R$ 30 por saca. "Depois da alta de preços, de setembro para cá ocorreu um movimento inverso, mas 2016 foi um ano bom para o produtor", diz.
Para Stefanelo, são apenas ciclos, que são mais curtos na hortifruticultura do que na produção de grãos, por exemplo. "Por isso que se diz que a batata um ano enriquece, no outro empobrece o produtor", cita. Ele completa que há um hábito de parte dos agricultores de escolher o que vai plantar de acordo com o preço, e não conforme a habilidade, o que gera superprodução em alguns momentos. "Tem de se especializar dentro de um mix de produção que é melhor no solo daquela região e saber que uma hora vai ganhar mais, em outra, menos."
Mais organização
As frutas também enfrentaram quedas históricas no País no período, com destaque no Ceasa de Curitiba para o mamão (-9,57%), a melancia (-9,09%) e a maçã (-3,37%). No entanto, a banana (8,15%) e a laranja (14,48%) ainda estão em alta devido a problemas climáticos do ano passado.
O engenheiro agrônomo Paulo Andrade, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab), afirma que existe uma inversão de hábitos no Brasil que leva à redução de consumo de frutas durante as férias de verão. Porém, como os agricultores são mais organizados em coletivos e possuem capacidade de armazenamento, eles sofrem menos em períodos de baixo preço. "Na maçã, o produtor é bem remunerado porque tem maior tecnologia e estoca com refrigeração", explica.
O técnico da Conab defende que os especialistas em hortaliças tenham o mesmo tipo de organização, para reduzir perdas e negociar melhor os preços. "Algumas associações conseguem levar direto ao consumidor, por meio de feiras de produtores, o que reduz a intermediação, apesar de os Ceasas sempre terem os ajudado muito", diz Stefanelo.


