Saída de dólares cresce; bolsas desabam
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terça-feira, 15 de dezembro de 1998
Agência Folha 
A Bolsa de Valores de São Paulo caiu ontem 8,50%, com a instabilidade nos mercados financeiros internacionais e perspectivas de forte evasão de dólares do País ontem. O mercado está desanimado. Não há compradores, disse o especialista Manuel Maceira. O índice Bovespa, das ações mais negociadas em São Paulo, chegou a 6.583 pontos, perdendo todos os ganhos de novembro e voltando aos patamares de 29 de outubro.
O volume negociado na Bolsa, de R$ 533,72 milhões, considerado baixo, foi inflado pela troca de papéis entre dois fundos do BNDES, em operação de cerca de R$ 100 milhões. O ingresso de US$ 5 bilhões da ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional), hoje, não trouxe alívio ao mercado.
O saldo cambial negativo de US$ 651 milhões na sexta-feira assustou os investidores, que passaram a apostar em uma saída líquida de até US$ 700 milhões ontem. Até as 19h30, haviam saído do país US$ 322 milhões. O mercado de câmbio fecha às 21h30.
Com forte evasão de recursos, o governo não pode cortar as taxas de juros, o que torna mais difícil o ajuste nas contas públicas. Juros altos tornam os investimentos em reais mais atrativos e impedem uma fuga de capitais. Mas acarretam encargos maiores na dívida interna do governo. Ontem, o governo colocou os juros do over, o mercado por um dia, em 32,40% ao ano, um corte de 0,2 ponto percentual com relação a sexta-feira.
Amanhã, na reunião do Comitê de Política Monetária, o governo deve cortar essas taxas, para um patamar não inferior a 28% ao ano, segundo aposta o mercado. Um corte maior poderia acarretar maior evasão de divisas.
Para os analistas, no entanto, não é correto falar em fuga de capitais. A diretora do Banco Central Maria do Socorro veio ao mercado ontem explicar que as saídas dizem respeito às operações já previstas. As saídas estimadas são de US$ 5 bilhões neste mês e têm de ser concentradas nos dias úteis. As declarações da diretora do BC não acalmaram os mercados, também inseguros com relação ao cenário internacional.
A Bolsa de Tóquio caiu 2,04%. Também a de Nova York não se sustentou diante das expectativas de resultados piores nos balanços de grandes empresas e da possibilidade, ainda que remotíssima, de impeachment do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. A queda do índice Dow Jones, das ações mais negociadas em Nova York, chegou a 1,43%. As expectativas de crescimento econômico fraco nos EUA e negativo no Brasil também deixam os investidores receosos quanto à eficácia dos cortes nos gastos públicos. Se a economia está em marcha lenta, fica mais difícil arrecadar impostos. De nada adianta segurar gastos se não há arrecadação de impostos suficiente.
Entre as ações mais negociadas em São Paulo que compõem o índice Bovespa, apenas duas ganharam preço: a da Votorantim Celulose e Papel PN (sem direito a voto), que subiu 4,5%, e a da Brasmotor PN, com alta de 4,3%. Lideraram as baixas as ações da Telerj Celular PNB, que despencou 16,2%, e da Celesc PNB, com um tombo de 14,7%.
O vencimento do índice Bovespa futuro na quarta-feira e das opções (direito de compra ou venda de uma ação) do Recibo de Telebrás (clone do que era a Telebrás antes da cisão) hoje contribuiu ainda mais para a instabilidade no mercado.


