Os protestos de agricultores que estão acontecendo em vários estados mostram de forma clara que a crise no setor é uma das piores dos últimos anos. Não faltam problemas. Em algumas regiões os produtores rurais enfrentaram as secas de 2004 e 2005, em outras sofrem com a ferrugem da soja, a febre aftosa. Até o setor avícola está começando a enfrentar os reflexos da gripe do frango, que ainda não chegou ao Brasil, mas está afetando as exportações.
  O pecuarista e ex-secretário do Ministério da Agricultura, Pedro de Camargo Neto, diz que ‘‘em mais de 20 anos de atuação no setor agrícola - ele começou como diretor da Sociedade Rural Brasileira em 1984 -, nunca vi uma crise no agronegócio como a atual’’. Segundo Camargo, há alguns elementos idênticos às crises anteriores, principalmente o descasamento de ativos e passivos do agricultor, só que hoje ela é resultado da questão cambial e, no passado, foi conseqüência dos Planos Cruzado, Verão, Collor e o período de implantação do Real, que também incluiu uma valorização absurda da moeda.
  Para piorar há ainda a inoperância do governo. Segundo o presidente do Sescap-Ldr, José Joaquim Ribeiro, a atividade rural sempre foi uma atividade de risco, pois os produtores dependem muito de ‘‘São Pedro’’, porém ela poderia ser menos arriscada se houvesse um planejamento rural. ‘‘O Brasil é um país privilegiado, pois é possível ter colheitas durante todo o ano. Só que não há planejamento para isso. Por exemplo, quando o preço da soja está bom, todos correm para produzir soja. Isso também já aconteceu com o algodão, com o trigo e outras culturas. Porém, quando o preço cai, os produtores abandonam essa cultura e partem para outra. Hoje vemos a expansão desenfreada das áreas de plantio da cana de açúcar. A pergunta é: É esse Brasil que queremos? Um grande canavial? ‘‘, questiona Ribeiro.
  Já o senador Osmar Dias (PDT), ex-secretário da Agricultura do Paraná, alerta que a crise no campo ameaça a economia das cooperativas e a economia das médias e pequenas cidades e, se o governo não tomar providências rapidamente, comprometerá toda a economia brasileira.
  ‘‘O Paraná está parado porque os produtores rurais perderam a paciência de uma vez por todas com o governo federal. Estão brincando com homens sérios, que vivem no campo e são responsáveis por 40% da receita bruta do país e por 37% de todos os empregos do Brasil. O governo abandonou os produtores rurais’’, afirma.
  De acordo com ele, os preços estão muito abaixo do custo de produção. ‘‘A defasagem do dólar está desestruturando o setor de produção. O Brasil está assistindo a quebra da agricultura e como conseqüência disso, a quebra da indústria de máquinas, implementos e insumos e a desestruturação do sistema cooperativista brasileiro’’, disse o senador no plenário do Senado.
  A crise no campo, segundo Osmar Dias, já causa demissões na indústria de máquinas e implementos. ‘‘Somente no Rio Grande do Sul, 7 mil funcionários foram demitidos das indústrias de máquinas e equipamentos. E o presidente da República sequer recebe as lideranças do setor agropecuário. Os produtores ameaçam não plantar. O país será obrigado a importar alimentos‘‘, disse, acrescentando: ‘‘O governo perdeu completamente o senso da razão, do que significa o setor primário no país. Se o governo não tomar medidas para amenizar a crise brasileira, os produtores não vão plantar e haverá uma crise de abastecimento no país’’.
  Calcula-se que os prejuízos das safras de 2005 e 2006 chegue a R$ 30 bilhões. O presidente do Sescap-Ldr diz que, além do governo colocar a mão na massa e planejar a agricultura para amenizar os períodos de crise, o produtor precisa de garantias para continuar produzindo. ‘‘Sem planejamento e garantias, não é possível continuar produzindo’’, afirma Ribeiro.

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