São Paulo - A safra recorde de grãos de 115,2 milhões de toneladas
neste ano não está ajudando a derrubar os preços dos alimentos, com a intensidade que ocorre normalmente em períodos de colheita. Ao contrário do que se esperava, vários produtos continuam com cotações firmes, ocupando posições de destaque no ranking dos itens com maiores altas de preços nos índices de custo de vida. O feijão e o arroz, por exemplo, ingredientes básicos da refeição do brasileiro, ficaram 5,74% e 1,34%, respectivamente, mais caros para o consumidor em abril, segundo Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe).
Asituação não é pior por causa do recuo do dólar para o patamar de
R$ 3,00, observa o analista da Agroconsult, Daniel Baptistella. É que, com o alívio no câmbio, o custo das importações de produtos em que houve quebra de safra, como arroz, por exemplo, diminui. Além disso, os preços em real das commodities que são formados no exterior - café, soja e derivados - ficam mais em conta. De toda forma, com o mercado externo aquecido para as commodities agrícolas, a perspectiva de preços menores dos alimentos no mercado doméstico para os próximos meses está restrita ao milho, açúcar e laranja, entre as grandes lavouras.
A contradição entre a safra abundante e preços que teimam em permanecer
nas alturas fica clara no Índice de Preços Recebidos (IPR) pelos agricultores no Estado de São Paulo, elaborado pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA). O indicador, que engloba 19 produtos agropecuários, fechou o mês passado com queda de 2,73% em relação a março, a primeira retração mensal desde abril de 2002. ''Esperávamos que essa queda ocorresse em fevereiro, com o início da safra'', diz o diretor do IEA, Nelson Batista Martin. Mesmo assim a queda foi modesta. Em abril do ano passado, o IPR recuou 4,32% em relação ao mês anterior por causa da colheita dos grãos.
O efeito pífio da safra nas cotações ganha destaque quando se avalia
os cinco grupos de preços do IPR. O grupo formado pelos grãos e pelo café, que reflete propriamente as grandes culturas, teve um recuo de preços de 0,04% em abril, enquanto as frutas e as olerícolas caíram 14,07% e 20,37%, respectivamente.
No caso do arroz, cuja safra encolheu 0,1%, e do feijão da primeira
colheita, que teve quebra de quase 5%, a tendência é de que as cotações continuem firmes nos próximos meses, já subindo no terceiro trimestre, prevê o economista da MB Associados, Fábio Silveira. Segundo ele, além da quebra da produção afetada por problemas climáticos, pesam sobre esses produtos os baixos estoques do governo.

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