São Paulo- Foi-se o tempo em que a agricultura era a âncora verde da inflação. Neste ano, com produção de 123,8 milhões de toneladas, menor do que 130 milhões de toneladas inicialmente prevista pelo governo, e preços em alta das commodities no mercado internacional, os alimentos devem pressionar os índices de preços, mas não a ponto de desequilibrar a inflação.
''A partir de julho e agosto vamos sentir uma retomada mais vigorosa nos preços dos alimentos'', prevê o economista da USP, membro do Conselho de Assuntos Econômicos da Fecomercio e ex-secretário de Política Agrícola, Guilherme Dias. O economista da consultoria MB Associados Glauco Carvalho concorda com Dias. ''Neste ano, os alimentos não vão contribuir para jogar a inflação para baixo.''
Esse movimento, que ocorreu também em 2003, já vem sendo observado no índices de preços por atacado. Em plena safra, as cotações dos produtos agrícolas estão em alta. quando normalmente a oferta de grãos é maior e os preços recuam. E a subida das cotações no atacado começa a contaminar índices que medem a inflação no varejo. Os alimentos no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fecomercio, por exemplo, deram um salto entre a última quadrissemana de março e a primeira quadrissemana deste mês: de 0,48% para 0,93%, impulsionando o índice geral, que subiu de 0,72% para 1,11% no mesmo período.
Também a Fundação Instituto de pesquisas Econômicas (Fipe), que calcula o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), já conta a maior pressão dos alimentos para as próximas semanas. Tanto é que a instituição mantém a previsão de que o índice encerre este mês com alta de 0,15% a 0,20%, mesmo com a prévia da primeira quadrissemana de abril tendo ficado em 0,06%, bem abaixo das expectativas.
''Um IPCA de 0,47% num mês de safra (março) não é bom sinal'', adverte o sócio da consultoria MS Consult Fábio Silveira. Estudo realizado pelo economista mostra que os preços agrícolas de 16 produtos no atacado subiram 1,9% na primeira quinzena deste mês em relação a igual período de março. A estimativa é que o índice encerre o mês com alta de 1,7%.
Outro indicador confirma a pressão altista. Desde a terceira quadrissemana de março, o Índice de Preços Recebidos (IPR) pelos agricultores tiveram variação menos negativa do que na quadrissemana anterior. Na primeira quadrissemana deste mês, o IPR recuou 0,35%, depois de ter fechado março com queda de 0,43%. Dentre os cinco grupos pesquisados no IPR, a cotação dos grãos e do café subiu em média 6,99% na primeira quadrissemana deste mês. O grupo inclui milho, feijão, soja e arroz, entre outras.
''A famosa supersafra de grãos não será tão grande assim'', afirma o pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA) da Secretaria da Agricultura de São Paulo Nelson Batista Martin, responsável pelo IPR. Ele destaca que a cotação do milho, que estava em R$ 22 a saca de 60 quilos para novembro, agora está R$ 29. ''Vai ter menos milho do que se esperava.'' O quadro é semelhante para a soja e o feijão.

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