Safra maior em 99 prejudica cafeicultor
Agência Folha
A Organização Internacional do Café (OIC), entidade que reúne 62 países-membros, projeta que a produção de café irá ultrapassar o consumo em 5,7 milhões de sacas (cerca de 342 mil toneladas) ao final da safra 1998/99. Seria a primeira vez que a produção excederia o consumo de café desde 1992.
Para a OIC, o excesso de café no mercado deve contribuir para uma queda no valor do produto, ameaçando os produtores brasileiros. O relatório da OIC foi divulgado em Londres (Reino Unido) na semana passada. Os dados foram atualizados até o fim de maio.
Segundo o documento, a disponibilidade global (produção associada aos estoques mundiais) aumentou 2,6%, passando de 142,1 milhões de sacas de 60 kg, em 1997, para 145,8 milhões, em 1998.
Somente a produção de café teve uma elevação de 8,18% em um ano. Já o consumo cresceu apenas 1,42% em todo o mundo, causando a diferença. A compra de café teria ficado em 100 milhões de sacas (24,7 milhões dos países exportadores e 75,3 milhões dos importadores), enquanto a produção, em 105,7 milhões. O principal contribuinte foi a América do Sul, cujo aumento de produção ficou em 13 milhões de sacas, disse Pablo Dubois, assessor de imprensa da OIC.
Do outro lado, as crises econômicas afetaram mercados consumidores, como o Japão e a Rússia. Eles passaram a comprar menos. Somente agora está havendo uma recuperação, disse. Duboi explicou que o relatório da OIC é feito a partir de dados fornecidos ao organismo pelos próprios membros. Nos últimos anos, teve nível de acerto superior a 90%.
A OIC é baseada em Londres e foi fundada em 1968. Sua função é prover dados que permitam um balanço entre a demanda e a procura do produto pelo mundo, para preservar o valor do café no mercado.
O analista de commodities Ron Schwarz, da consultoria norte-americana CIBC, disse que o consumo de café tende a se manter estagnado numa faixa de crescimento de 1,5% ao ano. Já a projeção para a safra 1999/2000 é de 4% (a menos que ocorra problemas climáticos e comprometam a safra). O café tem enfrentado concorrência de outras bebidas quentes. O único setor que tende ao crescimento é o de café gourmet, as chamadas bebidas especiais feitas a partir do produto, disse Schwarz.
Também pelo excesso de produto (mas não só por esse fator), a OIC estima uma queda no valor da saca de café no mercado global. O Brasil é o principal exportador do produto. Em 1998, vendeu cerca de 35 milhões de sacas. É também um dos maiores consumidores do produto (no último ano foram 12,1 milhões de sacas).
David Nahum Neto, secretário-geral da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), acredita em um equilíbrio entre produção e consumo nos próximos três ou quatro anos. Os números da OIC não levam em conta ainda os problemas com a produção, que estão sujeitos a condições como seca e geada. Acreditamos que em dois anos a produção deva ter um pequeno déficit, trazendo um pouco de equilíbrio, afirmou.
Para Manoel Vicente Bertone, vice-presidente do CNC (Conselho Nacional do Café), a situação atual ainda é de equilíbrio. Produzir um pouco a mais e consumir um pouco a menos faz parte do jogo. Mas para 1999/ 2000, o Departamento de Agricultura dos EUA já está trabalhando com uma safra de 104,7 milhões de sacas. Daí é provável que acabe sobrando um pouco, afirmou.
Segundo ele, o excedente de produção já tem reflexo nos preços brasileiros agora. O importador sabe que haverá produto à disposição. Por outro lado, o exportador também descobre de antemão que vai haver excesso de café e começa a antecipar as vendas, disse.
Bertone explicou que os principais países produtores de café estão procurando ordenar o fluxo de safra, para não colocar um volume muito grande ao mesmo tempo, fazendo o preço do café cair.





