Safra, juros e a crise - Aurélio Carlos Albano
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de março de 1999
Aurélio Carlos Albano 
O otimismo do comércio e da indústria nas principais regiões agrícolas do Paraná com a comercialização da safra traz novamente à tona uma questão já amplamente debatida por anos a fio mas que, parece, não consegue sensibilizar nossos governantes: a importância do agronegócio para o Brasil e, em especial, para o Paraná.
Mesmo mergulhado no contexto nacional de grave crise econômica, o Paraná receberá nos próximos meses a injeção de milhões de reais que garantirão, além capitalização dos produtores, no mínimo uma situação de estabilidade para setores estratégicos e com forte impacto nos índices sociais - a construção civil e o comércio. É justamente essa estabilidade que garante à população paranaense condições de vida mais favoráveis em relação à maior parte do País. A industrialização é um caminho, mas ainda é incipiente.
O que se vê, entretanto, é um quadro de desestímulo. Os últimos números divulgados pelo IBGE mostram descaso com o setor agrícola: a safra de grãos no País atingiu o patamar de 79,3 milhões de toneladas em 1995, caiu sensivelmente no ano seguinte, mostrou recuperação mas deve fechar esse ano em patamar pouco abaixo, segundo as projeções. Ou seja, não avançamos nada - pelo contrário, há retração.
E a perspectiva de todos os setores, incluindo o agronegócio, é totalmente desvaforável. O anúncio do aumento dos juros pelo Banco Central na última quinta-feira significa crédito proibitivo e, consequentemente, queda na atividade econômica.
Será que o governo não consegue outra alternativa para enfrentar a crise a não ser aumentar juros? Se é para segurar a inflação, os juros sobem. Contra alta do dólar, juros nas alturas. O mesmo para conter o capital especulativo, a explosão no consumo, a especulação com estoques. Os efeitos maléficos não são considerados, assim como não existe debate com a sociedade para a busca de alternativas.
O que fazer? É preciso apostar no que é líquido e certo, o que mostra resultados. Como o que estamos vendo agora no Paraná, com a chegada do dinheiro da safra. Como fazer? As soluções existem, são apontadas diariamente por empresários, sindicalistas, políticos de esquerda e de direita, e vêm desde a adoção de juros civilizados - como disse o próprio presidente Fernando Henrique no mesmo instante em que o BC jogava as taxas nas alturas - para o setor produtivo, até a implantação efetiva de uma reforma agrária que proporcione a distribuição de renda no País. Basta vontade política. Ou competência?
- AURÉLIO CARLOS ALBANO é editor de Economia da Folha de Londrina


