"Aqui não falta emprego para quem quer trabalhar.” A frase foi repetida à reportagem por moradores de Sabáudia, cidade que pertence ao polo moveleiro de Arapongas. De fato, o município é o que tem mais postos de trabalho formais na lista dos com população entre 6.000 e 6.999 habitantes.

A indústria local tem 26% de participação na economia. São 3.068 vagas, de acordo com levantamento da FOLHA, e ninguém tem dúvida de que a indústria, que emprega 1.223 pessoas, é que faz a riqueza da cidade. Dona também do maior PIB do grupo, com R$ 351,8 milhões, ou R$ 52,9 mil per capita, Sabáudia está bem acima das médias nacional e estadual.

O vendedor Mailson José de Souza é um dos que garantem não faltar emprego na cidade. Ele trabalha em uma loja de eletroeletrônicos e, mesmo com a crise, diz que consegue “segurar as pontas”. Vivendo há 19 anos em Sabáudia, ele presenciou o processo de industrialização local. “Quando tem indústria, há renda para a prefeitura e para o comércio”, sugere.

A comerciante Maisa Imbriani acredita que, não fossem as fábricas, não seria possível manter sua loja de artigos infantis. “A cidade cresceu muito com as indústrias. Geraram muitos empregos. E se tem emprego, tem dinheiro para gastar.”

Vanil Cabreira, há 32 anos dono de uma farmácia em Sabáudia, diz que a cidade mudou muito há 10 ou 12 anos, quando começaram a chegaram as fábricas de móveis. “A maior parte dos meus clientes hoje trabalha na indústria. Sabáudia melhorou muito, houve muito progresso. Aqui, quem quiser trabalhar não fica sem serviço.”

O prefeito Edson Hugo Manueira relata que a geração de empregos da indústria nos últimos anos segurou a movimentação do comércio e o poder aquisitivo da população. “Passamos por uma recessão difícil entre 2014 e 2016, o que acabou refletindo na cidade, mas agora as indústrias estão retomando as contratações.”

Segundo Manueira, 80% dos empregos estão ligados à indústria moveleira. A estratégia da cidade é justamente atrair as indústrias do segmento oferecendo melhores condições de instalação. “Em Arapongas os terrenos são três a quatro vezes mais caros. Nossa localização ajuda muito no momento de atraí-las para cá.”

O parque industrial da cidade passa por melhorias de infraestrutura e, em parceria da prefeitura com o governo do Estado, vai receber R$ 3 milhões em investimentos até setembro. “No próximo dia 17 de julho vai inaugurar na cidade uma fábrica de pão de queijo e derivados bem moderna, gerando 100 empregos diretos. Em janeiro, outra empresa terceirizada do polo moveleiro iniciou as atividades com 80 empregos. Temos mais quatro terrenos completamente preparados para receber indústrias neste momento.”

Dono da Caemmun Movelaria e presidente do Sima (Sindicato das Indústrias de Móveis de Arapongas e Região), Irineu Munhoz, diz que, além de dar empregos e trazer divisas aos municípios, a indústria ajuda os demais setores. “Por exemplo o setor hoteleiro que ganha ocupação”, afirma.

A matriz da indústria de Munhoz fica em Arapongas. Ele abriu uma filial em Sabáudia porque a prefeitura da cidade ofereceu facilidades para aquisição de uma área “bem interessante” para a instalação da segunda planta. “Ainda, aproveitamos toda a estrutura de Arapongas. A filial fica a 10 quilômetros da matriz”, conta. No total, a indústria emprega 500 pessoas, das quais 200 em Sabáudia.

Capital do Jeans tem quinto maior PIB na faixa de 11 mil pessoas

Sem escapar do cenário econômico oscilante dos últimos anos, as indústrias alocadas nos pequenos municípios paranaenses viveram um processo de retração e, ainda de forma tímida, buscam recuperar o espaço perdido. As cidades alicerçadas no segmento industrial acabaram sofrendo com a crise de forma mais amena, devido ao engajamento gerado nos demais setores da economia local.

A indústria fez com que a economia dessas cidades continuasse a girar, principalmente no setor de comércio e serviços. Dos municípios na faixa de 11 mil habitantes, o que tem maior participação da indústria é Pérola (44%), na microrregião de Umuarama. Considerada a capital do jeans, a cidade tem um PIB de R$ 353,9 milhões, o quinto maior do grupo. O indicador per capita é de R$ 32,1 mil.

Em Pérola, o prefeito Darlan Scalco afirma que o comércio e a prestação de serviços estão totalmente ligados à atividade industrial. Ele relata que, quando assumiu o cargo em 2013, tinha receio de uma possível crise, já que muitos dos empregos eram de uma única fábrica grande da cidade, que acabou se tornando referência em jeans em todo o País. O grupo Oppnus chegou a produzir mais de 1 milhão de peças por mês. “Temos que aproveitar tudo que a indústria têxtil nos trouxe e pulverizar buscando outros tipos de indústria para a cidade. Hoje vivemos um momento mais difícil, de menos empregos, mas sei que há cidades do nosso porte no Estado com muito mais dificuldades [porque falta de polo industrial].”

Apesar da crise, Pérola é uma das cidades que têm mais empego no grupo. São 2.492 e a metade, ou 1.247, está no setor industrial.

Scalco relata que a cidade já está se preparando para essa retomada. “Tem uma hora em que é preciso comprar uma calça jeans nova”, diz o prefeito. Ele relembra que o boom econômico local foi tão grande no “momento das vacas gordas” que o poder público teve muita dificuldade de acompanhar a movimentação. “Tivemos uma lista de espera de 200 crianças para ingressar nas escolas. Só neste ano que consegui trazer uma escola particular para a cidade. A construção de casas populares também foi muito importante, em torno de 350”, diz. “O Brasil todo agora está esperando que esse entrave da política acabe, que a reforma da Previdência saia e os investimentos sejam retomados”, completa.

O diretor da indústria focada em moda feminina D’Propósito, Humberto Bovo, diz que a empresa faz parte da história de Pérola. “Dos 53 anos desde a fundação do município, estivemos presentes em 20, ofertando oportunidades de empregos, gerando riqueza e participando ativamente da vida dos moradores.”

A indústria trabalha com confecção em tecidos planos e jeans. “Toda a gama de calças, shorts, saias, vestidos, macacão, jaquetas, entre outras peças. Já tivemos camisaria masculina e feminina, mas suspendemos em 2018 esse setor, por conta de estratégia de mercado e enxugamento da operação”, afirma Bovo.

Ele diz que a empresa já teve quase 100 empregos diretos. “Hoje temos somente cerca de 20% desses colaboradores internamente, a maioria deles envolvidos nos processos administrativos. Terceirizamos praticamente toda a produção”, conta.

“Com a oferta de crédito e juros compatíveis com o nosso mercado atual”, o empresário acredita que será possível reestruturar todos os setores produtivos. “Teríamos condição de ter mais ofertas de emprego, e acreditamos que em quatro ou cinco anos retomaríamos o patamar já alcançado”, diz Bovo.

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