O papel que nos cabe
  Ao denunciar o filho à Polícia Militar pelo roubo do carro da família, em Londrina, o representante comercial Juraci Martins cumpriu o doloroso gesto de atirar a primeira pedra. E o fez como um contraponto ao pai do rapaz que espancou a doméstica no Rio de Janeiro, a lamentar a prisão do filho na condição de bandido. No começo desta semana, na terça-feira, o filho do vice-governador, Bruno Pessuti, 22 anos, foi assaltado e deixado preso no porta-malas do carro em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba.
  Os três episódios associam a juventude bem nascida com a violência dos nossos dias. Mas este é tema recorrente nos tempos que vivemos e nem cabe aqui reprisá-lo ainda mais.
  O que chama a atenção é o papel que cabe a pais e mães com filhos naquela idade, em que deixam a barra da saia e vão se aventurar pelas baladas da vida. Não há como negar, mesmo ao custo de encarar a própria insensibilidade, que já passou pela cabeça de todo mundo agir como o representante comercial de Londrina para dar um corretivo no filho que se recusa a entrar na linha. Assim como não há Cristo que, na hora em que se vê um filho de algemas, se encolhendo no camburão, impeça um pai ou uma mãe de exercer o mais forte dos instintos, o de proteção da cria.

Todos no mesmo barco
  E o assalto ao filho do vice-governador Pessuti vem comprovar que pais e mães paranaenses estão absolutamente certos em passar noites insones à espera do fim das baladas. Porque nenhum filho, do mais pobre ao mais abonado, está à salvo. Mas, aqui também é preciso conviver com o contraditório: ora, é bom que os poderosos, os que têm nas mãos a condição de mudar o rumo das coisas sintam na pele, ou nos próprios filhos, a disseminação da violência no Paraná porque, a partir daí, pode vir a solução. Ao mesmo tempo, há que se conviver com a conclusão óbvia: ora, se aconteceu com o filho do segundo homem mais poderoso do Estado, que será dos meus, que circulam por aí sem a aura do sobrenome e do poder?
  Quando assumiu o segundo mandato no governo do Paraná, o governador Roberto Requião encontrou uma população tão fragilizada na questão da segurança que, numa atitude inédita na política brasileira, acumulou a função pública mais importante na pirâmide estadual com a mais espinhosa. Ficou governador e secretário de Segurança durante quase um ano. Olhando agora, foi uma atitude muito mais emblemática, de auto-afirmação de um governo recém-chegado, do que a busca de uma solução.
  De lá pra cá, os índices de insegurança e mortes violentas em todo o Paraná só fizeram aumentar e o terceiro governo, além de manter um secretário de Segurança que, na ponta do lápis nem deveria sê-lo, age por solavancos: só quando alguém grita, como no caso do movimento em negro de Londrina, se manca.
  E sem um projeto amplo e factível para a área de segurança, que envolva e faça a população acreditar no resultado, pais e mães paranaenses vão continuar se deparando com a violência na sala. Seja na forma de desvios dos próprios filhos, seja na forma de violência contra os próprios filhos. Porque, não há dúvida nenhuma, insegurança e violência, algozes e vítimas são parte de um mesmo círculo, se influenciam e se complementam. É a partir daí que toda e qualquer ação na área de segurança tem que dar os primeiros passos.

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