Russos correm para trocar rublos
Os russos desistiram ontem de acreditar na capacidade do governo para resolver a crise econômica e até no intempestivo presidente Boris Yeltsin, que trouxe de volta o primeiro-ministro demitido em março, Viktor Chernomyrdin. O resultado foi uma corrida desenfreada às casas de câmbio para trocar, a qualquer preço, rublos por dólares, o que provocou um avanço de 10,36% no valor da divisa dos Estados Unidos em relação ao rublo.
Os negócios com câmbio foram interrompidos duas vezes durante o pregão (tática prevista na legislação local) para evitar uma desvalorização mais forte, mas no fim do dia o dólar foi cotado a 7,88 rublos, ante os 7,14 da véspera. Essa foi a maior queda em um só dia verificada nos últimos quatro anos, desde a terça-feira negra ocorrida em outubro de 1994.
Nas casas de câmbio a divisa norte-americana foi negociada a 8,5 rublos, com um spread entre o preço de compra e o de venda, que antes não passava de 3%, superior a 13,3%.
A Bolsa russa fechou em alta de 2,10 pontos (2,43%), com o índice RTS em 88,50 pontos. Algumas ações do índice subiram por correção técnica das fortes perdas da semana passada. Foi o caso das ações da Gazprom, que fecharam em alta de 7%. A maior parte dos acionistas da Gazprom são os bancos russos. Então, quando eles começaram a ter sérios problemas de liquidez, na semana passada , eles venderam ações, afirmou um operador russo.
Mas as altas foram bastante limitadas pelo novo atraso do governo em divulgar oficialmente a renegociação dos US$ 40 bilhões em GKOs, ou títulos da dívida russa. Apenas alguns detalhes foram divulgados. O plano precisa da aprovação de Yeltsin através de decreto.
A corrida não se deu apenas em relação à moeda, pois os russos lotaram também as lojas, mercados atacadistas e varejistas em busca de bens de consumo e gêneros de primeira necessidade antes que os proprietários tivessem tempo de remarcar novamente as mercadorias. O preço de um maço de cigarros, por exemplo, subiu de 40 para 43 rublos da segunda para a terça-feira, reclamou um consumidor. Viktor Chernomyrdin, primeiro-ministro recém-nomeado foi responsabilizado pelos analistas econômicos pela corrida de ontem ao dólar. Ele deu hoje claros sinais de que pretende mudar os rumos da política econômica do país e pode até abandonar algumas medidas de austeridade acertadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), disse um especialista.
Para agravar ainda mais o quadro, o ex-negociador da dívida russa Anatoly Chubais, disse ontem que qualquer indecisão do governo neste momento poderá provocar novos e sérios danos à economia.
Em entrevista publicada ontem no Komsomolskaya Pravda, Chernomyrdin disse que nem tudo está perdido, mas deixou claro que sua prioridade é defender o interesse social do povo e pagar os salários e aposentadorias em atraso. Em segundo lugar na lista está a preparação de uma nova política industrial para o país. Segundo ele, isoladamente, a política monetária não será suficiente para tirar a Rússia da crise.Epa/France PresseClima de desconfiançaRussos fizeram filas ontem nos bancos para sacar economias e correram às lojas para comprar bens de consumoAgência Estado





