Ruralistas aprovam urgência; governo suspende negociações
Agência Estado
De Brasília
O governo suspendeu as negociações com a bancada ruralista e não vai adotar novas medidas além das anunciadas terça-feira pelo ministro da Agricultura, Marcus Vinicius Pratini de Moraes, cujo impacto no Tesouro Nacional foi estimado em R$ 4,5 bilhões. Com o impasse, o Congresso é que terá de decidir, no voto, como ficará a renegociação das dívidas agrícolas.
Ontem a Câmara dos Deputados aprovou por 410 votos a favor e 11 contra, o regime de urgência para votação do projeto da Comissão de Agricultura. A votação deverá ocorrer na semana que vem.
O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o governo já apresentou medidas satisfatórias para atender aos agricultores e fez um apelo ao Congresso para que não aprove o perdão das dívidas agrícolas. Logo depois da esmagadora vitória dos ruralistas na votação do requerimento de urgência do projeto, o presidente advertiu que vetará a proposta, se aprovada.
A Confederação Nacional da Agricultura (CNA), responsável pela mobilização dos grandes produtores endividados, garante que não vai deixar o movimento enfraquecer. Cerca de 80 ônibus chegariam a Brasília ontem à noite para substituir participantes que deixaram o movimento.
Em nota, a CNA pediu ao governo seriedade na negociação do acordo rural e lamentou a atitude do Executivo. As autoridades insistem em adotar gestos preconceituosos no trato das questões dos produtores rurais, em lugar de vê-los como aliados na recuperação da economia brasileira, diz a nota.
O governo decidiu endurecer com os produtores rurais porque entende que o movimento para a renegociação global dos débitos privilegia grandes devedores que simplesmente não querem pagar as dívidas. Não vamos estimular o calote, temos de estimular a adimplência, disse o ministro Pratini de Moraes.
Ambos garantiram que o governo não apresentará mais propostas aos ruralistas. E informaram que as medidas já anunciadas serão executadas independentemente de acordo. O que está sendo feito dará uma oportunidade extraordinária para os agricultores ficarem adimplentes, mas tem gente que não gosta porque estamos privilegiando os pequenos produtores de baixa renda, avaliou Pratini.
Do total de 22 mil devedores de R$ 18 bilhões do crédito rural ao BB, a grande maioria (90%) é formada de pequenos e médios agricultores com dívidas de até R$ 500 mil, que no total do débito representam apenas 11%, ou R$ 1,98 bilhão. Em contrapartida, 6% dos grandes devedores com dívidas superiores a R$ 1 milhão respondem por 80% dos débitos, ou R$ 14,4 bilhões. Só 1% dos grandes devedores, com dívidas acima de R$ 5 milhões, é responsável por 49%, ou quase R$ 9 bilhões.





