Rumo ao iceberg
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de julho de 1998
Luiz Antonio Fayet 
O quadro macroeconômico brasileiro - raiz de nossos problemas sociais - está se deteriorando vertiginosamente. Os fatos indicativos apresentados em valores aproximados e, de forma simplificada, dão o alerta: a dívida externa privada evolui de 42 bilhões de dólares em 1990 para mais de 150 em 1997.
Segundo projeções oficiais anualmente o Brasil deverá pagar ao exterior pelo saldo em conta corrente, entre 25 e 30 bilhões de dólares e, para cobrir este furo terá de contar fundamentalmente com entradas de investimentos e de novos empréstimos e, o saldo da balança comercial (exportações - importações). Se entram empréstimos aumenta a dívida, se entram investimentos, no futuro sairão lucros remetidos. Entretanto, havendo superavit na balança comercial, pagam-se dívidas sem onerações futuras. Veja na tabela o comportamento da balança comercial em bilhões de dólares.
Estes dados mostram que com déficits comerciais crescentes e a saída de divisas para pagar especialmente empréstimos e dividendos, as contas externas tendem a piorar mais rapidamente ainda. Não podemos esquecer que em 1986 o Brasil entrou em moratória internacional.
Internamente a situação não é a mais confortável. A dívida pública federal que era de 12 bilhões de dólares em 1990, já ultrapassando os 160 bilhões. Para conter esta tendência o Governo Federal precisa gastar menos do que arrecada, além de tentar liquidar parcelas desta dívida com as privatizações. Para isto acontecer há necessidade de reduzir a gastança, aprovar as reformas constitucionais e gerenciar adequadamente o dinheiro público.
Neste contexto, a redução das taxas de juros é fator chave pois, enquanto o déficit da previdência está previsto em 11 bilhões de reais, os juros da rolagem da dívida interna deverão consumir aproximadamente 29 bilhões (dotação autorizada) em 1998 e, toda a privatização das Teles, otimisticamente, girará em torno de 20 bilhões.
A evolução dos fatores tem indicado que a situação está piorando. Com o crescente déficit da previdência e mais os juros, o dinheiro das privatizações vai virar pó. para dificultar esta situação, o governo federal, objetivando agradar seus aliados, está absorvendo e renegociando brutais dívidas de estados e municípios (somente São Paulo 59 bilhões). Agravando ainda mais, as baixas taxas de crescimento da economia não permitem vislumbrar a geração de uma massa econômica capaz de absorver estes problemas.
Paralelamente, a crise da Ásia também não acabou e o países endividados como o Brasil, estão na linha de tiro do processo. Para complicar, o perfil da situação Russa é assemelhada à do Brasil. Tudo isto está bem refletido, nas avaliações de risco das agências internacionais de rating. Economistas de todas as vertentes, exceto os chapa branca, estão conscientes e vem alertando: câmbio defasado, juros altos, descontrole fiscal e incapacidade de gerência, são os ingredientes básicos para o banquete do diabo.
É a perda de tempo das autoridades federais fazer propaganda interna de que nossas reservas cambiais estão altíssimas. Para os especialistas, além de onerosas, impacam o déficit público e pior, são emprestadas, não são reservas próprias, geradas sadiamente na economia do País. Para iniciar a reversão deste quadro, temos duas linhas de ação que devem e podem ser mobilizadas urgentemente: aceleração das desvalorização do real e proteção e expansão do setor rural.
Até o fim do ano o real precisa ser desvalorizado paulatinamente em pelo menos 5%, reativando automaticamente um grande universo de oportunidades de exportações altamente salutares para toda a matriz de nossa economia. Paralelamente, a agricultura tem de ser protegida do dumping da concorrência internacional e estimulada para abastecimento interno. Não precisa ser especialista para entender que ajuste de câmbio e estímulo à agricultura dão a resposta mais rápida no aumento da atividade econômica, aumento do emprego, aumento da exportação e atenuação de problemas sociais.
Até o Japão, segunda maior potência econômica mundial, no olho do furacão econômico da crise asiática, vem deixando sua moeda desvalorizar (perto de 50%) como medida emergencial para reequilibrar a economia.
A máquina econômica do Brasil, embora fragilizada, está montada. São milhões de pessoas entre empregados, empresários e autonomos, prontos para reagir.
É hora de responsabilidade e ação rápida, sem dissimulações, sem transferir responsabilidades, num dia atribuindo a culpa aos agricultores por que não sabem produzir, num outro dia responsabilizando os industriais por ineficientes, depois os bancos porque cobram juros altos, os consumidores porque compram, São Pedro pela seca, o fogo pelos incêndios em Roraima, os nordestinos que tem mania de comer todos os dias - pela fome no Nordeste, a Ásia pela nossa economia em deterioração, os parlamentares pela falta de reformas, os especuladores pelo câmbio defasado, as multinacionais pelo déficit comercial, os banqueiros internacionais pela explosão da dívida externa, o não sei quem pelo não sei o que, e assim por diante. Agora o novo vilão é o código de barras. Notável é constatar que o governo nunca é o responsável, a culpa é sempre dos outros, especialmente dos agentes privados. A sociedade precisa reagir.
Não é uma questão de ser a favor da fraude, dos desvios.
É importante que os estabelecimentos comerciais coloquem claramente os preços de venda de seus produtos e que os órgãos de fiscalização e toda a sociedade combatam os desvios. Chegou a hora de colocar claramente os preços de venda e mais, a sua composição, especificando quanto corresponde ao produto e quanto corresponde aos sufocantes impostos pagos pelos consumidores.
É necessário que os comerciantes não fujam desta responsabilidade social pela conscientização de nosso povo. O consumidor brasileiro ainda não tem noção de que é ele quem paga as contas e especialmente, que é ele quem historicamente tem financiado o desperdício, a orgia e a corrupçao governamentais.
Chega de transferir responsabilidades. Todos somos responsáveis pelo nosso país e por isso todos temos que arrumá-lo urgentemente. Os problemas estão em todos os cantos, na educação, na saúde, na segurança, no desempego, nas contas externas, nas contas internas, nos juros, nas crescente concentração de renda, ....
Não podemos permitir um fracasso no plano real. Nestes quatro anos conseguimos grandes avanços que devem ser preservados. Organizações civis e governo tem de se mobilizar. As soluções são conhecidas e precisam ser mobilizadas com urgência.
O iceberg está aí, bem à vista. Não adianta gritar para ele saia da frente, nós todos, mas principalmente os dirigentes do governo federal, com humildade, temos de alterar a rota ou viraremos mais um Titanic econômico.
- LUIZ ANTONIO FAYET é membro do conselho regional de Economia do Paraná, ex-deputado federal, ex-diretor do Banco do Brasil.


