'Rua do sitiante' sobrevive à modernização
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domingo, 05 de maio de 2002
Sid Sauer<br>Equipe da Folha 
Você já precisou comprar um moedor manual de café? E chapas para fogão a lenha? Nem um moedor caseiro de carne, um cilindro de mesa para a massa do pão ou uma torradora manual de café? Se precisar e estiver em Campo Mourão, há um endereço certo para isso em pleno centro da cidade: a quadra da Rua Brasil entre as avenidas Irmãos Pereira e José Custódio de Oliveira.
A rua do sitiante já foi uma das mais movimentadas de Campo Mourão. Era o destino obrigatório dos moradores da zona rural durante suas visitas à cidade. Desde o meados da década de 70, no entanto, a rua vem se esvaziando devido ao êxodo rural. Mesmo assim, num espaço de 100 metros ainda funcionam dois armazéns que atendem no velho sistema do balcão, duas selarias e um revendedor de fumo de corda.
Nosso comércio, voltado para quem mora na lavoura, perdeu muito com o fim do café, conta Antônio Marques, 70 anos, que trabalha há mais de 40 anos no ramo. No comércio dele, tudo é vendido no balcão: desde itens da cesta básica até ferragens, como enxadas, foices, telas e itens que desapareceram da vida moderna, como moedores de café. De vez em quando a gente ainda vende algum, revela.
Francisco Antunes, 57, dono do outro armazém da Rua Brasil, conta que ainda hoje cerca de 70% de seus clientes são da zona rural. Os poucos moradores que restam nos sítios continuam nos procurando, ressalta. Ele lembra com saudades do tempo em que havia cinco linhas de ônibus que traziam moradores de Bourbônia (hoje distrito de Barbosa Ferraz) até Campo Mourão. Nenhuma dessas linhas existe mas, lamenta.
Antunes conta que tem receio de modernizar seu comércio e isso espantar a clientela mais antiga. Ele já tentou, por exemplo, liberar a entrada dos clientes para que eles próprios escolham suas mercadorias, como ocorre nos supermercados. Não deu certo. A maioria prefere fazer os pedidos do balcão. Eles têm receio de entrar, frisa o comerciante. Não posso mudar o sistema de atendimento e desprezar esses clientes. São meus amigos.
Segundo Antunes, boa parte de sua clientela é formada hoje por aposentados, os mesmos de 30 ou 40 anos atrás. Perdemos clientes que se mudaram para a cidade e fazem compras nos seus bairros. Os produtos à venda também não mudaram. Vendemos em menor quantidade, mas os produtos são os mesmos, diz. A diferença é que um lampião hoje é mais vendido como enfeite. Antes isso era a nossa única energia dentro de casa.


