O protesto dos agricultores de Jataizinho, Sertanópolis e Bela Vista do Paraíso obteve adesão maciça da categoria e transcorreu sem registro de distúrbios ou violência. Os produtores pintaram os rostos de verde e amarelo - lembrando os estudantes caras-pintadas durante o processo de impedimento do ex-presidente Collor - e montaram bloqueios na BR 369, PR 323 e PR 090. Além disso, foram fechadas agências bancárias, escolas, unidades agroindustriais e comércio em geral.
  Na ponte sobre o rio Tibagi, em Jataizinho, os produtores estacionaram dezenas de tratores logo cedo e interromperam o tráfego de cargas e caminhões. Veículos leves e ônibus de passageiros foram liberados de hora em hora. A fila, perto do almoço, chegou a aproximadamente 2 km.
  ‘‘Nós estamos montando o MQ: movimento dos quebrados’’, ironizou o agricultor Everson Luiti - que cultiva soja, milho e trigo em 50 alqueires. ‘‘Tenho uma dívida de R$ 150 mil e preciso de carência para pagar. Só vamos liberar as estradas quando atenderem nossa situação’’, afirmou. A taxa de juros para empréstimos rurais, de acordo com o agricultor, está em 8,75% - praticamente a metade dos 15,75% da Selic, fixada pelo Banco Central.
  ‘‘Para os bancos, a gente só é bom enquanto está dando lucro. Quando começa o prejuízo, ele não querem mais conversa’’, reclama o produtor de Jataizinho, Robson Maggi. Alegando prejuízo de R$ 800 mil nas últimas três safras, Maggi diz que já entregou a maior parte do maquinário para os credores. ‘‘Hoje, estou vivendo da aposentadoria da minha mãe. É duro, mas a realidade é essa. Estamos pedindo socorro mesmo’’.
  Em Sertanópolis, a mobilização dos agricultores conseguiu sensibilizar comerciantes e agências bancárias a fechar as portas. O bloqueio nas estradas impediu apenas a passagem de cargas e caminhões - o tráfego permaneceu liberado para carros e ônibus.
  O produtor rural e presidente do Conselho de Segurança de Sertanópolis, Roberlei Bartolo, cita a situação dos operadores de colheitadeiras como termômetro dos problemas no setor.
  ‘‘Em nossa cidade existem 1.800 operadores que ganhavam, em média, R$ 8 mil por 3 meses de trabalho durante a colheita. Hoje, o ganho não passa de R$ 2 mil’’, estima. ‘‘Muita gente já não tem como pagar o supermercado. A crise é muito séria’’, exclama. De acordo com Roberlei Bartolo, uma conseqüência imediata para o município é o aumento do desemprego e da violência.
  Situação semelhante ocorre em Bela Vista do Paraíso, onde produtores bloquearam a PR 090 para transporte de grãos e aproximadamente 4 mil alunos ficaram sem aulas ontem. O prefeito Antônio Pimenta
(PMDB), que também é produtor rural, explica que as receitas do município já caíram 25% desde o início da crise na agricultura, em 2004.
  ‘‘Quase não arrecadamos imposto sobre compra e venda de imóveis porque o mercado está parado. Além disso, o ICMS também caiu porque o preço dos grãos está na metade do que era há alguns anos’’. Estes problemas, segundo ele, tem gerado aumento do número de desempregos e indigentes. ‘‘Pela primeira vez no município, temos idosos procurando as entidades de assistência social porque já não conseguem sobreviver sozinhos’’.

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