Brasília - O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, previu ontem que o setor agrícola terá uma perda de renda no próximo ano e que, diante desse cenário, é preciso ter recursos para apoiar a comercialização da safra. ''O governo precisa criar recursos disponíveis, necessários para cumprir a lei de garantia de preços mínimos, permitir a realização de leilões de opções e compras da agricultura familiar para atender à demanda do Fome Zero'', afirmou.
Rodrigues recebeu o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e parlamentares da bancada ruralista para um café da manhã no ministério. O objetivo do encontro foi enfatizar, para a área econômica, a necessidade de recursos para os mecanismos de apoio à comercialização da produção. Esses instrumentos vão desde o lançamento de contrato de opção (que dá ao produtor o direito de vender determinado produto ao governo a um preço preestabelecido), linhas de crédito para estocagem e compra de produtos da agricultura familiar.
Ao encaminhar a proposta orçamentária para o Congresso Nacional, o governo propôs liberação de R$ 500 milhões para esse item. Rodrigues considerou esse valor ''irrisório'' e pediu, em sintonia com a bancada ruralista, pelo menos R$ 2 bilhões. Palocci esquivou-se da cobrança e disse que as negociações para elevar o montante devem ser feitas com os parlamentares, já que a proposta orçamentária está sendo analisada pelo Legislativo.
O recado da área econômica foi entendido. O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin, disse que será preciso fazer nas próximas duas semanas uma articulação para que os parlamentares destinem mais recursos para a comercialização da safra. Palocci sinalizou, no entanto, que a liberação de recursos será inferior ao pedido. ''Na verdade, teremos algum nível de recurso para atender a uma demanda bastante extensa de todos os lados'', comentou.
Apesar de ter ouvido queixas dos parlamentares sobre a situação do setor em 2005, Palocci disse que o agronegócio ''continuará sendo a âncora fundamental para o desenvolvimento do País''. O agronegócio, afirmou, foi o setor capaz de restabelecer na última década o ritmo das exportações do País. As contas externas do Brasil têm no agronegócio uma contribuição fundamental.
Para o deputado Francisco Turra (PP-PR), o cenário não é tão róseo e há sério risco de um novo ciclo de endividamento em 2005. De acordo com dados apresentados por Turra no encontro, os custos de produção da agricultura subiram até 60% na safra 2004/05. Os preços das principais commodities agrícolas recuaram nos últimos meses. No acumulado do ano até novembro, as cotações da soja recuaram 30,92%; do milho, 15,07% e do algodão, 39,86%. Esses dois fatores e a desvalorização do dólar são pontos negativos para a agricultura em 2005.
Depois de participar do café da manhã, Turra disse que ''a área econômica do governo foi e é muito insensível'' aos pedidos de liberação de recursos para a agricultura. ''Eles (os técnicos da área econômica) acham que liberar dinheiro para a agricultura é o mesmo que rasgar dinheiro'', comentou. Ele foi ministro da Agricultura de abril de 1998 a julho de 1999.

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