Robótica para meninas quebra tabus e mostra que elas podem tudo
Em escola pública de Cornélio Procópio, oficina reúne 20 adolescentes e tem papel relevante na valorização das alunas em projetos tecnológicos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de abril de 2025
Em escola pública de Cornélio Procópio, oficina reúne 20 adolescentes e tem papel relevante na valorização das alunas em projetos tecnológicos
Simoni Saris - Grupo Folha 

Em projeto de mestrado de uma aluna da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), em Cornélio Procópio (Norte Pioneiro), meninas adolescentes têm a oportunidade de aprender robótica e desenvolver protótipos com os quais se identificam, desde a concepção à montagem dos modelos.
Com a oficina exclusiva para meninas, não se trata de reforçar estereótipos de gênero, separando o que é de menino do que é de menina, mas de criar para elas um ambiente em que possam se expressar livremente e expor suas ideias sem a interferência dos colegas do sexo masculino, que geralmente tentam impor suas vontades quando o assunto é tecnologia, comportamento comum, resultante do machismo estrutural.
Desenvolvido pela professora e pedagoga Thaiane Aline Machado, o projeto consiste na criação de uma oficina de robótica exclusiva para alunas da Escola Estadual Professor William Madi. A oficina começou no início deste ano letivo e os resultados já aparecem. Um trailer cor-de-rosa da Barbie e um robô-fada customizado com cílios, batom e voz feminina estão entre os projetos desenvolvidos pelas adolescentes.
Muito além do orgulho de ver as suas ideias e propostas tomando forma, as meninas destacam a validação, a autonomia, a independência e a autoconfiança como alguns dos ganhos obtidos com a participação na oficina.
Democratizar a tecnologia é o principal objetivo do projeto. “No momento em que entrei no mestrado da UTFPR, dentro das linhas de pesquisa, houve baixo número de representação feminina dentro das áreas de engenharia”, contou Machado.
Ao voltar a atenção para a grade curricular das escolas, especificamente para a disciplina de robótica, a pedagoga entendeu que iniciar um projeto nessa área e direcionado a alunas do ensino médio poderia ser um caminho para estimular o aumento da participação feminina em faculdades de engenharia e tecnologia.

O projeto ganha ainda mais relevância por ser desenvolvido em uma escola que atende moradores de uma região carente de Cornélio Procópio.
Da oficina fazem parte 20 alunas, do sétimo ao nono ano. A escola é de ensino integral. As meninas têm aulas regulares pela manhã e participam do projeto à tarde. A primeira oficina termina em um mês, mas já tem fila de espera para as próximas vagas. As estudantes inscritas no primeiro trimestre deverão atuar como monitoras nas próximas turmas, em um processo que estimula a multiplicação do conhecimento.
Giovanna Marline e Julia Gonçalves, de 13 anos, estão no oitavo ano e participam das aulas de robótica da grade curricular. Mas nas oficinas, a diferença foi poder deixar os projetos com a cara delas, integrantes da equipe responsável pela montagem do trailer da Barbie. “Nas aulas normais de robótica, a gente não estilizava nada e aqui, a gente estilizou, ficou mais bonito”, comentou Giovanna, que se diz mais interessada na disciplina depois de ver sua ideia sair do papel.
“Na oficina, foi mais divertido. No começo, achamos que ia ser mais difícil porque foi a primeira vez fazendo um trabalho desse jeito, mas a gente foi pegando o costume e gostou de fazer.”, disse Julia. “A gente personalizou do nosso jeito. Os meninos nunca aceitariam fazer um trailer da Barbie. Aqui, usamos nossa criatividade.”

Responsáveis pelo projeto do robô sentimental Wanda, concebido para ser uma fada que pergunta ao humano qual é o seu desejo, Maria Klara Rodrigues Lalau, 12, e Isadora Cristina Ribeiro Santos, 13, finalizaram o trabalho orgulhosas da realização. “É uma sensação de conquista”, definiu Maria Klara. “Sinto orgulho de ter feito”, disse Isadora.

Para as mães, a participação das adolescentes na oficina, envolvidas em um tema onde os meninos costumam se impor, é um avanço enorme. “É preciso tirar esse tabu de que só homem pode. As mulheres têm essa oportunidade de avançar na área de tecnologia”, disse a diarista Vardilene Marline Joaquim Pereira, mãe da Ana Beatriz, 13, integrante do projeto.
A auxiliar de serviços gerais Rosenilde Calixto, mãe da Stephany, 14, acredita que oportunidades como essa podem contribuir para que novas possibilidades sejam avaliadas na hora de escolher o futuro profissional. “Fico feliz porque minha filha está muito empolgada. Eu não tive essa oportunidade. A Stephany sempre teve muito interesse por coisas diferentes. Ela tem muita coisa em mente, é muito criativa e cheia de planos. Fala em morar em outro país.”
'Elas se sentem acolhidas e pertencentes', diz vice-diretora
Para que a oficina de robótica acontecesse, a pedagoga Thaiane Aline Machado contou com a contribuição do professor de robótica Sidney Prasniewski. Em processo de conclusão da faculdade de engenharia, o professor vê com entusiasmo o projeto encampado por Machado. “Hoje, tem poucas mulheres ingressando na profissão de engenheira e trazer as alunas é muito interessante.”
O professor conta que nas aulas de robótica da grade curricular, onde alunos e alunas têm que trabalhar juntos, é comum os meninos tentarem se impor, fazendo prevalecer as suas ideias.
Na oficina, o professor percebeu que elas se sentiram mais livres para expressarem as suas ideias e as aplicarem na prática. “Já tem alunas interessadas em participar de um concurso de robótica que vai ter. Fiquei orgulhoso”, definiu. “Nunca existiu área de menino e de menina.”
A vice-diretora da Escola Estadual Professora William Madi, Elisângela Cândido, destacou que o projeto da pedagoga vai de encontro com a proposta da direção de trabalhar a questão do projeto de vida em sala de aula a partir do sexto ano, quando é reforçado aos estudantes que eles podem trilhar o caminho que quiserem. “Elas puderam ter a oportunidade de ter contato com uma realidade a qual elas não tinham acesso. Várias meninas já querem tentar alguma coisa na UTFPR, na área de engenharia. Elas se sentem acolhidas e pertencentes. A oficina ajudou as meninas a sonharem.”

Machado é orientada pelo professor e coordenador do Programa de Mestrado em Ensino da UTFPR, Eduardo Filgueiras Damasceno. Ele ressaltou que dentro do programa há um empenho em identificar limitações e problemas e propor ações que possam ser desenvolvidas dentro das escolas para saná-los, com o apoio da universidade. Os projetos são voltados a alunos desde a educação infantil até o ensino médio. “São ações que têm como objetivo promover uma mudança social, econômica e comportamental”, destacou. A intenção é replicar as boas práticas em outras escolas do Paraná.(S.S.)


