São Paulo – Os mercados continuaram pressionados ontem, apesar de intervenções e declarações do governo para tentar acalmar os investidores, que nos últimos dias vêm provocando uma onda de venda de ativos brasileiros. O risco Brasil chegou ao maior nível desde o início de novembro, 1.132 pontos, em alta de 5,6%. A cotação do dólar subiu 0,46%, a R$ 2,609, e o C-Bond, o título da dívida externa brasileira mais negociado, caiu 1,93%, para 71,375 centavos de dólar, também em um nível a que não chegava desde novembro. O mercado acionário enfrentou menos turbulências, caindo apenas 0,09%.
Para tentar contornar a crise de confiança no mercado doméstico –acirrada pelas perdas dos fundos de investimento que passaram a ter de contabilizar seus ativos pelo valor de mercado, desde sexta-feira–, diversos membros da equipe econômica do governo concederam entrevista à imprensa sobre o assunto e até o presidente Fernando Henrique Cardoso deu declarações por meio de um porta-voz.
Fernando Henrique considerou naturais e passageiras as recentes oscilações do mercado, com alta do dólar e aumento do risco-país do Brasil. ‘‘Oscilações de curto prazo são típicas de funcionamento do mercado e as turbulências a que estejam reagindo são passageiras’’, afirmou, por intermédio do porta-voz, Alexandre Parola. O presidente ressaltou que ‘‘o processo sucessório está longe de ser concluído’’.
O diretor de Política Monetária do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, garantiu que o BC e o mercado não estão travando uma ‘‘queda-de-braço’’, que estaria levando à disparada do dólar. ‘‘Não há briga entre o BC e o mercado. Isto não interessa nem ao BC e nem ao mercado e é ruim para o Brasil’’, afirmou. Segundo ele, prova disso é que o BC decidiu cancelar o leilão que faria anteontem de recompra de Letras Financeitas do Tesouro (LFTs), títulos pós-fixados, depois de consultas ao mercado. ‘‘Não estamos perdidos’’, disse, respondendo às críticas feitas contra as mudanças de posição da instituição nos últimos dois dias. Ele esclareceu que o objetivo do BC é ofertar um tipo de papel que seja o mais ‘‘confortável’’ possível para o mercado, para trazê-lo ‘‘de volta à tranquilidade’’. Com títulos mais curtos, o BC quer fazer com que fique menor a volatilidade das cotas dos fundos de renda fixa.
O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, disse que as medidas adotadas pelo BC nos últimos dias foram ‘‘apropriadas’’ e considerou exagerada a reação do mercado relacionando resultados das pesquisas eleitorais com possível desempenho econômico do País no futuro. ‘‘Não tem de haver esse calor que está ocorrendo em relação às eleições. Essa é minha opinião, é a opinião do presidente, é a opinião do governo’’, disse o ministro, depois de assegurar que a reunião da Câmara de Política Econômica para avaliação de conjuntura, à qual o presidente Fernando Henrique compareceu, não teve por objetivo tomar qualquer decisão.
A decisão da agência de medição de risco Moody’s de rebaixar a perspectiva do Brasil, segundo Figueiredo, tende a aumentar o nervosismo no contexto atual. ‘‘Isso é natural. Quando o mercado está muito otimista, uma notícia negativa às vezes nem é percebida, mas num cenário negativo uma notícia negativa tende a aumentar o nervosismo’’, disse o diretor do BC.

mockup