Risco de ajuste cambial ainda existe
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sexta-feira, 29 de agosto de 1997
Da Redação 
ArquivoMologni: Dinheiro das privatizações para a agricultura e investimentos sociaisO ministro da Agricultura, Arlindo Porto, disse dias atrás, que o governo não prevê alterações de impacto na comercialização da próxima safra, em resposta à preocupação do setor exportador que pressiona por mudança na política cambial. O ministro quis tranquilizar os agricultores no momento de decisão da nova safra. No entanto, há algumas razões que podem justificar mudanças na política cambial: A) O País precisa aumentar as exportações na busca do reequilíbrio da balança comercial, B) As indústrias de esmagamento estão na expectativa de algumas facilidades para exportar mais e não perder parte da matéria-prima como aconteceu este ano. Possíveis ajustes cambiais compensariam a desoneração do ICMS que estimulou a exportação de soja em grão.
Sobre o risco de ajuste cambial, especificamente, este jornal entrevistou o professor Ismael Mologni, de Londrina. Ele acha que o ajuste cambial em países de economia emergente como a do Brasil, e que trabalham com câmbio valorizado, é sempre um risco iminente. E medidas de impacto na área cambial que venham a ser adotadas em países asiáticos, como aconteceu três semanas atrás, podem perfeitamente repercutir em outros blocos econômicos. A luz amarela continua acesa, sinalizando que há necessidade de cuidados, disse Mologni quando o impacto cambial asiático parecia não mais respingar na economia latino-americana.
O câmbio supervalorizado é bom para importar mas prejudica as exportações. Sempre está sujeito a pressões dos exportadores como agora para que o Banco Central aplique minidesvalorizações. Mologni usa o exemplo do México, três anos atrás, e explica como se deu o quadro sintomatológico de que isto poderia acontecer, sinalizado, segundo ele, pelo deslocamento dessas aplicações e pelas preocupações dos gestores dos fundos de commodities.
As migrações desses fundos não são o único indicador, mas em geral refletem um ambiente econômico característico. Uma prospecção desse ambiente poderia ter diagnosticado, com antecedência, tanto os fenômenos iguais ao mexicano, que causou tantos prejuízos a aplicadores do mundo inteiro, como os de menor impacto, como a recente mudança cambial na Ásia.
A economia brasileira tem a seu favor - para se proteger dos reflexos das mudanças cambiais que podem ocorrer - a sua estabilidade econômica. Mas o professor se preocupa com a ausência de medidas que garantam a sobrevida dessa estabilidade.
Ciclo de investimento Mologni defende a aplicação na agricultura de parte da receita das privatizações. Financiar investimentos na produção é o melhor destino a ser dado ao grande volume resultante das privatizações, segundo ele.
Se o governo não financiar habitação, agricultura e agroindústria, vai deixar passar a grande oportunidade para investir. O Brasil - lembra Ismael - experimentou dois grandes ciclos de crescimento nos últimos 40 anos. O primeiro foi nos anos 50, com o Plano de Metas de Jk, quando o PIB médio anual foi de 7%, entre 1952 e 1962. O segundo ciclo foi no período de 1966 a 1967, com o Plano de Ação Econômica do Governo, crescimento de 9%. No primeiro caso, cresceu através do endividamento externo direto do governo central, com organismos internacionais. No segundo, utilizou-se em grande parte das estatais, ainda com recursos externos para promover o denominado milagre brasileiro.
Hoje o governo anuncia o ingresso de US$ 80 bilhões com a venda das estatais. O dinheiro obtido com a desmobilização desses ativos físicos pode proporcionar novo ciclo de crescimento se for injetado na infra-estrutura operacional e nos setores primário, secundário e terciário.
Os investimentos na agricultura referente a bens de capital (máquinas, equipamentos e pesquisa) alavancariam a produção das fábricas no setor metal mecânco. A construção civil com investimentos em conjuntos habitacionais também alavancaria vários segmentos produtivos.
Assim, o governo poderia iniciar um novo ciclo de crescimento com recursos líquidos da privatização, no caso US$ 10 bilhões por ano, durante oito anos, promovendo, inclusive, o setor industrial na substituição de máquinas obsoletas por modernas, de alta produtividade para a competição globalizada.
Quanto à dívida pública bruta, em torno de US$ 340 bilhões (Conjuntura Econômica de julho/97) que representa 45% em 96 calculado preliminarmente em US$ 755 bi, pode ser rolada com a colocação líquida de títulos públicos, sem usar dinheiro do caixa do Tesouro oriundo das vendas de estatais ou de tributos. Desta forma, parece plausível - diz Mologni - que o País utilize recursos extras das privatizações na substituição da poupança pública que não existe no caso brasileiro e, assim promover, o terceiro ciclo de crescimento da economia.
Mologni é professor de Economia da UEL, diretor financeiro da Sercomtel S/A, ex-secretário da Fazenda de Londrina e ex-coordenador de finanças da UEL.


