ArquivoMologni: Dinheiro das privatizações para a agricultura e investimentos sociaisO ministro da Agricultura, Arlindo Porto, disse dias atrás, que o governo não prevê ‘‘alterações de impacto’’ na comercialização da próxima safra, em resposta à preocupação do setor exportador que pressiona por mudança na política cambial. O ministro quis tranquilizar os agricultores no momento de decisão da nova safra. No entanto, há algumas razões que podem justificar mudanças na política cambial: A) O País precisa aumentar as exportações na busca do reequilíbrio da balança comercial, B) As indústrias de esmagamento estão na expectativa de algumas facilidades para exportar mais e não perder parte da matéria-prima como aconteceu este ano. Possíveis ajustes cambiais compensariam a desoneração do ICMS que estimulou a exportação de soja em grão.
Sobre o risco de ajuste cambial, especificamente, este jornal entrevistou o professor Ismael Mologni, de Londrina. Ele acha que o ajuste cambial em países de economia emergente como a do Brasil, e que trabalham com câmbio valorizado, é sempre um risco iminente. E medidas de impacto na área cambial que venham a ser adotadas em países asiáticos, como aconteceu três semanas atrás, podem perfeitamente repercutir em outros blocos econômicos. ‘‘A luz amarela continua acesa, sinalizando que há necessidade de cuidados’’, disse Mologni quando o impacto cambial asiático parecia não mais respingar na economia latino-americana.
O câmbio supervalorizado é bom para importar mas prejudica as exportações. Sempre está sujeito a pressões dos exportadores como agora para que o Banco Central aplique minidesvalorizações. Mologni usa o exemplo do México, três anos atrás, e explica como se deu o ‘‘quadro sintomatológico’’ de que isto poderia acontecer, sinalizado, segundo ele, pelo deslocamento dessas aplicações e pelas preocupações dos gestores dos fundos de commodities.
As migrações desses fundos não são o único indicador, mas em geral refletem um ambiente econômico característico. Uma prospecção desse ambiente poderia ter diagnosticado, com antecedência, tanto os fenômenos iguais ao mexicano, que causou tantos prejuízos a aplicadores do mundo inteiro, como os de menor impacto, como a recente mudança cambial na Ásia.
A economia brasileira tem a seu favor - para se proteger dos reflexos das mudanças cambiais que podem ocorrer - a sua estabilidade econômica. Mas o professor se preocupa com a ausência de medidas que garantam a sobrevida dessa estabilidade.
Ciclo de investimento Mologni defende a aplicação na agricultura de parte da receita das privatizações. Financiar investimentos na produção é o melhor destino a ser dado ao grande volume resultante das privatizações, segundo ele.
Se o governo não financiar habitação, agricultura e agroindústria, vai deixar passar a grande oportunidade para investir. O Brasil - lembra Ismael - experimentou dois grandes ciclos de crescimento nos últimos 40 anos. O primeiro foi nos anos 50, com o Plano de Metas de Jk, quando o PIB médio anual foi de 7%, entre 1952 e 1962. O segundo ciclo foi no período de 1966 a 1967, com o Plano de Ação Econômica do Governo, crescimento de 9%. No primeiro caso, cresceu através do endividamento externo direto do governo central, com organismos internacionais. No segundo, utilizou-se em grande parte das estatais, ainda com recursos externos para promover o denominado milagre brasileiro.
Hoje o governo anuncia o ingresso de US$ 80 bilhões com a venda das estatais. O dinheiro obtido com a desmobilização desses ativos físicos pode proporcionar novo ciclo de crescimento se for injetado na infra-estrutura operacional e nos setores primário, secundário e terciário.
Os investimentos na agricultura referente a bens de capital (máquinas, equipamentos e pesquisa) alavancariam a produção das fábricas no setor metal mecânco. A construção civil com investimentos em conjuntos habitacionais também alavancaria vários segmentos produtivos.
Assim, o governo poderia iniciar um novo ciclo de crescimento com recursos líquidos da privatização, no caso US$ 10 bilhões por ano, durante oito anos, promovendo, inclusive, o setor industrial na substituição de máquinas obsoletas por modernas, de alta produtividade para a competição globalizada.
Quanto à dívida pública bruta, em torno de US$ 340 bilhões (Conjuntura Econômica de julho/97) que representa 45% em 96 calculado preliminarmente em US$ 755 bi, pode ser rolada com a colocação líquida de títulos públicos, sem usar dinheiro do caixa do Tesouro oriundo das vendas de estatais ou de tributos. ‘‘Desta forma, parece plausível - diz Mologni - que o País utilize recursos extras das privatizações na substituição da poupança pública que não existe no caso brasileiro e, assim promover, o terceiro ciclo de crescimento da economia.
Mologni é professor de Economia da UEL, diretor financeiro da Sercomtel S/A, ex-secretário da Fazenda de Londrina e ex-coordenador de finanças da UEL.

mockup