Os gastos dos ricos no Brasil representam dez vezes os dos mais pobres. A conclusão é da pesquisa Perfil das Despesas no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostram que os 10% das famílias mais abastadas têm despesas médias por mês de R$ 1,8 mil por pessoa e os 40% mais pobres de apenas R$ 180. Com base nestes números, um cálculo mostra que as 17,8 milhões de pessoas destas famílias mais ricas gastam R$ 388,5 bilhões ao ano, bem acima dos R$ 145,3 bilhões usados para consumo pelos 67,5 milhões dos mais pobres.
  A faixa considerada mais rica pelo IBGE é a das que têm renda do conjunto de seus integrantes igual ou maior que R$ 3.875,78, enquanto os 40% mais pobres têm renda média mensal de até R$ 758,25. ‘‘Os dados refletem a desigualdade brasileira’’, diz o analista do IBGE José Mauro de Freitas Junior. O Perfil das Despesas foi feito com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002/2003. Nos últimos anos, entretanto, pesquisas mais recentes já constaram que a desigualdade de renda recuou e isso deverá, também, jogar para baixo a desigualdade de despesas. Embora não sejam iguais, as desigualdades de renda e de gastos andam praticamente juntas.
  Em algumas regiões do País, a desigualdade nas despesas é ainda maior, conforme a pesquisa. No Nordeste, por exemplo, os mais ricos têm gastos per capita 11,8 vezes maior do que os mais pobres. O destaque é Alagoas, onde os gastos são 15,6 vezes maiores. Por Estados, a menor distância entre gastos fica no Amapá (5,3 vezes), Roraima (6,1) e em Santa Catarina (6,8). São Paulo fica na quarta colocação (7), junto com o Pará.
  Embora tenha 22% da população total estimada para o País, São Paulo concentra 37% das pessoas que compõem o grupo dos 10% de famílias mais ricas do País. Por ser um dos Estados menos desiguais, o gasto per capita dos paulistas mais ricos é o 12º no ranking nacional, na casa dos R$ 1.708,92. Já a maior renda per capita dentre os ricos fica no Rio (R$ 2.338,96) - onde os ricos gastam o equivalente a 9,8 vezes as despesas dos mais pobres - e a menor, no Maranhão (R$ 116,18).
  Segundo a pesquisa, ‘‘quanto menor a despesa per capita, menor o nível de bem estar e, por conseguinte, maior o nível de pobreza da população sob estudo’’. O economista da MB Associados Sergio Valle alerta, contudo, que o ano de 2002 foi marcado por forte turbulência financeira e inflação alta. Desde então, a renda vem se recuperando, o salário mínimo subiu acima da inflação e houve ganhos da renda do trabalho, além de ações como o Bolsa Família.
  Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nos últimos dois anos têm mostrado que a concentração da renda diminuiu no País entre 2002 e 2005. ‘‘Houve uma queda grande. O desafio é o Brasil manter isso por mais 20 ou 30 anos. Eu diria que a desigualdade nos gastos entre os mais pobres e ricos deve ter evoluído na mesma proporção’’, disse o pesquisador do Ipea Serguei Soares, citando o mercado de trabalho e programas do governo.

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