Luz e sombra. Esses conceitos fazem parte da obra da mestre em psicologia social e consultora de empresas Fela Moscovici para ilustrar um pouco da realidade das empresas brasileiras. Fela dedicou mais de 20 anos à pesquisa e salas de aulas da Fundação Getúlio Vargas e Escola Brasileira de Administração Pública, no Rio de Janeiro, tem vários livros sobre a organização empresarial e foi uma das principais palestrantes do 3º Congresso Norte Paranaense de Recursos Humanos, realizado na semana passada em Londrina. O evento foi promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos – Regional Norte do Paraná.
Fela Moscovici classifica a luz como sendo tudo que é palpável ou mensurável dentro de uma organização. São a missão, a estrutura organizacional, o objetivo da empresa. ‘‘O que fica na claridade é tudo aquilo que a organização focaliza, acredita, tenta incrementar e considera como realidade’’, diz ela em seu livro ‘Renascença Organizacional. A sombra, prossegue Fela no livro, ‘‘compreende tudo aquilo que a organização ignora, desvaloriza, tenta minimizar o impacto, enfim, o que não é mencionado nem trabalhado’’. Neste item, entram as emoções, valores morais e culturais dos funcionários da empresa.
‘‘Às vezes se trabalha dando muita ênfase apenas à luz. Depois os empresários se perguntam por que não têm êxito em sua atividade. Isso ocorre porque não se dá atenção também à sombra’’, comenta Fela, em entrevista concedida à Folha, logo após sua palestra, sexta-feira, em Londrina. Ela destaca que trabalhar o que é invisível numa empresa é tão importante quanto a ênfase aos aspectos visíveis. O peso, diz ela, é tão grande que pode alterar os resultados do planejamento.
Ela fez, no Congresso, a conferência magna sobre ‘‘Trabalho em Equipe: a Teoria e a Prática’’, concluindo que as duas têm andado bastante separadas na grande maioria das empresas. ‘‘Hoje está tão baladada a questão da qualidade, mas até que ponto se desenvolve a qualidade pessoal e interpessoal. Cadê o Iso 9000 para pessoas,’’ questiona ela.
Embora tenha uma visão crítica com relação à postura de algumas organizações, Fela não absolve o funcionário e destaca que cabe também a ele buscar qualificação, investindo em si mesmo, em seu saber. ‘‘O funcionário bem preparado e que não tem seu devido valor numa empresa pode mudar para outra.’’
Fela observa que muitas empresas ainda têm o funcionário como peça substituível. ‘‘Mas essa realidade pode mudar e tem que começar pela cúpula dirigente, que é o centro de irradiação de novas idéias e o exemplo de comportamento. Os dirigentes têm que ser os primeiros a vestir a camisa da mudança na prática.’’ Além do livro Renascença Organizacional, Fela Moscovici tem outros cinco livros publicados e deve lançar o próximo em dezembro, cujo título provisório é ‘‘Caleidoscópio da Empresa’’.