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Londrina

Economia

m de leitura Atualizado em 16/03/2022, 19:59

Revendedores seguram alta do gás, mas reajuste impacta os mais pobres

Aumentos no preço de itens essenciais corroem a renda das classes mais baixas e elevam risco de endividamento, alerta economista

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de março de 2022

Simoni Saris - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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Seis dias após entrar em vigor o aumento nos preços dos derivados de petróleo, muitos revendedores de gás de cozinha em Londrina ainda não repassaram integralmente a alta aos seus clientes. Na última sexta-feira (11), a Petrobras reajustou o GLP em 16%, mas os preços dos botijões de 13 quilos na cidade subiram entre 10% e 13%, segundo cotação feita pela reportagem da FOLHA junto a estabelecimentos comerciais. Para não afugentar os consumidores, em um primeiro momento a estratégia foi segurar um pouco o aumento. Mas economista alerta para o impacto que o aumento de um item essencial à sobrevivência terá na vida da população, especialmente a de baixa renda. 

Imagem ilustrativa da imagem Revendedores seguram alta do gás, mas reajuste impacta os mais pobres Imagem ilustrativa da imagem Revendedores seguram alta do gás, mas reajuste impacta os mais pobres
|  Foto: iStock
 

Uma revendedora de gás de cozinha em Londrina reajustou o preço do produto em 13%, pouco abaixo do anunciado pela Petrobras. Um botijão, que antes do aumento era vendido a R$ 110, agora sai por R$ 125. Apesar da alta, as vendas cresceram. “Os clientes estão comprando mais porque estão com medo de desabastecimento caso haja uma greve dos caminhoneiros”, disse a proprietária do estabelecimento, Maria Cristina Delcolli.  

Na semana passada, nos dias que antecederam o reajuste, contou Delcolli, muitos consumidores correram à loja para comprar dois ou três botijões de uma só vez como forma de garantir o preço antigo. Agora, após o aumento, há clientes pedindo para parcelar. “Não são muitos, mas alguns pedem e a gente divide o pagamento em duas vezes”, comentou.

Mesmo repassando o aumento do gás aos clientes, Delcolli conta que manter a empresa funcionando está cada vez mais difícil porque embutir os outros custos no preço final do produto encareceria demais o valor do botijão. Ela se queixa que tudo aumentou. As taxas bancárias, o aluguel da máquina do cartão, as taxas do cartão, luz, manutenção e o combustível usado para abastecer os veículos que fazem as entregas. “Metade das nossas vendas são feitas no cartão, então a gente só recebe o que vendeu 30 dias depois, o que não cobre os custos que tivemos ao longo do mês que passou”, disse a proprietária da revendedora, mostrando os efeitos da inflação no caixa da empresa.  

Em outra revendedora da cidade, o proprietário Márcio Maciel disse que tenta, “por uma semana”, trabalhar com valores abaixo do reajuste das distribuidoras. No estabelecimento, o preço do botijão passou de R$ 95 para R$ 105 – alta de 10,52%. “A gente segurou por uma semana, mas vai ter que reajustar”, adiantou.  

Segundo Maciel, após o reajuste da semana passada ainda não foi possível observar uma mudança no comportamento dos clientes, mas desde que os aumentos passaram a ocorrer com uma certa constância, os hábitos de consumo foram alterados. “Tem períodos em que os clientes deixam de comprar. Quando tem uma alta, já tem uma diminuição nas vendas. E os clientes reclamam muito do preço.”  

IMPACTO

Com o valor médio do botijão de R$ 120 e o salário mínimo no país fixado em R$ 1.212, o gás de cozinha tem uma participação de quase 10% no orçamento das famílias. Comprometer 10% da renda familiar com a compra de um item essencial significa ter de fazer remanejamentos e cortes em outros gastos, destacou o economista e professor da Pitágoras/Unopar Elcio Cordeiro. “O problema, quando se observa o aumento, não é só pagar mais caro. Isso reduz o padrão de consumo de outros bens para poder fazer frente a esses aumentos.” 

Para a população que tem uma renda mais baixa, ressaltou Cordeiro, as altas em itens essenciais, como gás e combustível, produzem um efeito cascata, elevando o risco de inadimplência. Com o orçamento mais apertado, essas famílias também ficam sem recursos para gastar com roupas, lazer e entretenimento, prejudicando o comércio e toda a economia local. “Elas direcionam para o gás e o combustível o dinheiro que iriam gastar com um tênis, um cinema. Isso fica em segundo plano ou é cortado do orçamento”, disse o economista. 

Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) apontam que no período de 12 meses, entre março de 2021 e março de 2022, o gás de cozinha acumulou alta de 23,2%, bem acima da inflação de 2021, que ficou em 10,06%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O índice de inflação tem como base uma cesta média de bens de consumo e, a partir do momento que a renda do trabalhador diminui, aumenta o foco nos produtos essenciais. Assim, a inflação média não reflete a realidade das famílias de classe mais baixa. “A inflação que elas sentem tem um índice muito maior do que os índices oficiais mostram, o que compromete demais a renda dessas famílias”, explicou Cordeiro. “A inflação sobe e pega o dinheiro das pessoas, que vão para o crédito, mas o parcelamento está com juros altos e vai virando uma bola de neve, as pessoas vão ficando sem saída.” 

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