A utilização das águas de melhor qualidade para o consumo doméstico, destinando as de menor qualidade para usos não potáveis, é o que propõe a prática do reuso. Largamente utilizado em outros países mas ainda incipiente no Brasil, esse conceito prevê a reciclagem das águas pluviais urbanas, dos esgotos e dos efluentes industriais, sugerindo que a água tratada seja aplicada em atividades de irrigação de campos e jardins, formação de reservas de proteção contra incêndios, descargas sanitárias em banheiros públicos, lavagem de veículos e em sistemas decorativos como fontes e chafarizes. O reuso de água entrou na agenda de discussões estratégicas do País no Acquasur 2000 e 5º Fórum de Água Subterrâneas, encontro realizado no final do ano passado para debater o futuro dos recursos hídricos.
O consultor em engenharia ambiental e professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Ivanildo Hespanhol, estuda o reuso há pelo menos 40 anos. Maior especialista brasileiro no tema, atuou durante nove anos na Organização Mundial de Saúde, em Genebra, ajudando a definir as diretrizes para o reuso de esgotos tratados na agricultura. Nesta entrevista, ele fala sobre a viabilidade da aplicação do reuso no Brasil.
FolhaQue papel pode desempenhar o reuso na gestão dos recursos hídricos brasileiros?
HespanholConsidero o reuso hoje como palavra-chave na gestão dos recursos hídricos. Não visualizo a sua aplicação apenas onde falta água, em lugares como o semi-árido. Não é só aí que temos de pensar no reuso. Em São Paulo, por exemplo, apesar de a bacia do Alto Tietê ter uma precipitação anual média significativa, falta água na cidade. Isso porque, além de estar situada na cabeceira do rio, São Paulo tem 16 milhões de habitantes. O reuso também tem que ser praticado onde a oferta de água passa a ser antieconômica. A água usada e hoje desperdiçada precisa ter uma utilização maior.
FolhaO Brasil pratica o reuso?
HespanholO reuso não está institucionalizado no Brasil e em geral é feito de uma forma não planejada e até inconsciente, porque não inclui na sua prática barreiras de proteção para garantir a saúde pública. Simplesmente usa-se a água do rio que é, praticamente, esgoto porque está suja. As barreiras de proteção não são estabelecidas, não existe o reconhecimento de que se está fazendo o reuso.
FolhaEm quais casos o reuso está indicado?
HespanholA questão da qualidade da água está sempre associada ao uso e por isso deve ser compatível com ele. Não se vai tratar a água para lavar peças na indústria da mesma forma que se trata a água que será usada na agricultura, por exemplo. O uso define a qualidade da água. A primeira indicação de reuso é na área urbana, onde pode ser dividido entre uso potável e não potável. No caso do não potável, há uma quantidade enorme de usos possíveis. O esgoto tratado pode ser usado na irrigação de parques e jardins, em reservas de incêndio e na lavagem de ruas.

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