Pela primeira vez desde que a crise financeira mundial estourou, há 14 meses na Tailândia, as equipes econômicas de alguns países desenvolvidos e em desenvolvimento vão se reunir com a cúpula do Fundo Monetário Internacional (FMI) para tratar abertamente de uma questão, considerada até agora tabu: os riscos de contágio e uma estratégia comum para minimizá-los.
Os convidados para os encontros de hoje e amanhã, na sede do FMI em Washington, foram escolhidos a dedo. Participarão os ministros da Fazenda e os presidentes de bancos centrais do Brasil, do México, da Argentina, da Venezuela, da Colômbia, do Uruguai, do Peru e do Equador - países que protagonizaram e superaram crises no passado, mas cuja situação é delicada, por serem economias dependentes de financiamento externo.
Estarão também representantes do Canadá (exemplo de país rico, considerado imune, até o terremoto nas bolsas da semana passada) e os Estados Unidos. Apesar de serem a economia mais forte nesse momento, os EUA começaram a sentir os efeitos da crise, na redução do ritmo de seu crescimento - algo que inevitavelmente afetará o resto do mundo.
‘‘A falência da Rússia e a falta de confiança dos investidores em mercados emergentes não são a única explicação para o nervosismo que tomou conta das bolsas nos últimos dias’’, disse um operador de Wall Street. ‘‘O mercado está tenso porque estão todos falando agora em recessão mundial’’, explicou. Mas o problema, além de econômico, é político: a crise financeira está se espalhando num momento em que faltam lideranças para contê-la.
‘‘Essa falta de liderança, nas principais potências, explica porque se demorou tanto para encarar essa crise que, por ser global, requer uma solução global’’, disse um diplomata brasileiro. O economista chefe do Citibank, Carlos Kawall, concorda e cita, como exemplos, Japão, na Alemanha e nos Estados Unidos.
‘‘O Japão enfrenta um problema político grave, depois de seis anos de recessão econômica, e o novo governo, ao que tudo indica, tentará resolver esse problema no seu próprio timing e não no timing que interessa à comunidade internacional’’, disse Kawall. ‘‘Na Alemanha, o chanceler Helmut Khol quer manter distância da crise porque está preocupado com as eleições deste ano e a possibilidade de seu Partido Democrata Cristão perder o poder depois de 21 anos’’, acrescentou.
Já nos EUA, o presidente Bill Clinton está na reta final de seu segundo mandato, tendo que driblar um escândalo político-sexual e enfrentar a oposição da maioria do Congresso às suas propostas. Uma delas é a necessidade de o Tesouro norteamericano contribuir com US$ 18 bilhões para o financiamento do FMI.
‘‘Os Estados Unidos estão adotando uma política isolacionista, mais preocupada em resolver seus próprios problemas do que questões internacionais’’, disse Kawall. ‘‘Tanto é assim que, no começo, assistiram à desvalorização do iene japonês, sem tentar pará-la, o que serviu para agravar a crise’’, acrescentou.
Segundo ele, o que está em jogo agora é saber se o Federal Reserve (Banco Central norteamericano) baixará as taxas de juros para melhorar a situação mundial (reduzindo a fuga de capitais das economias emergentes) ou se esperará adotar essa medida quando for pressionado por razões domésticas.
Diante desse quadro, Kawall e estrategistas de outros bancos norteamericanos e europeus estão achando que a reunião, proposta pelo FMI, será positiva - mesmo que o Fundo esteja sem recursos para enfrentar uma crise dessas dimensões, e sem prestígio.
Segundo ele, a reunião também servirá para marcar as diferenças entre economias latinoamericanas, que fizeram seus deveres de casa, e a russa, além de mostrar que existe um ‘‘esforço de coordenação para superar eventuais problemas na região’’. O próprio diretor geral do FMI, Michel Camdessus, explicou que o Fundo não é tão impotente quanto parece.
Camdessus alertou para o risco de contágio e disse que o objetivo do encontro será avaliar a situação econômica dos países reunidos e as medidas adotadas recentememte para fazer frente à crise. ‘‘A reunião também será uma oportunidade para que a comunidade internacional possa indicar sua disposição em assistir os membros que estão seguindo as políticas corretas e, apesar disso, podem precisar de assistência financeira’’, disse. Segundo Camdessus, o FMI terá os recursos necessários para ajudar quem precisar e merecer.

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