Rolf Kuntz e Paulo Sotero
Agência Estado
De Seattle, EUA
A partir de amanhã, cinco grupos diferentes de ministros e altos funcionários de um número indeterminado de países tentarão alcançar o acordo que os embaixadores das catorze nações e grupos de nações mais relevantes para o comércio internacional não conseguiram negociar durante dois meses de discussões, em Genebra. Não parece a solução mais engenhosa. ‘‘Pelo contrário, pode ser a receita do desastre’’, comentou o representante de um país em desenvolvimento.
Mas é a fórmula proposta pelo diretor geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), o ex-primeiro-ministro da Nova Zelândia, Michael Moore, para buscar um entendimento sobre o que será discutido na próxima rodada de liberalização do comércio internacional. Lançar a rodada é o objetivo da terceira reunião ministerial da OMC, que se instala terça-feira, em Seattle, num ambiente tenso e envenenado – e não pelas diferenças que separam os 135 membros da organização.
Fora da reunião, um número estimado em até 100 mil manifestantes prometem dificultar ao máximo qualquer acordo com protestos que começaram ontem. Os protestos devem chegar ao auge hoje, com uma grande marcha pelas ruas da cidade, e continuarão até a sexta-feira, o último dia da reunião. Os ativistas foram mobilizados por mais de mil sindicatos e organizações não governamentais de noventa países, que defendem as causas as mais diversas mas estão unidos em sua disposição de denunciar e bloquear o processo de globalização da economia, ou, se não isso, pelo menos impor-lhe regras que garantam os interesses dos trabalhadores e dos consumidores em três áreas: a proteção do emprego e do salário, a preservação do meio ambiente e a garantia de acesso a alimentos seguros.
Centenas de políticos e empresários de vários países também estão chegando a Seattle para pressionar os negociadores da reunião da OMC em favor de seus objetivos, que tendem a coincidir pelo menos num ponto, independentemente de eles virem de nações ricas ou pobres: todos querem abrir mais os mercados dos outros países do que os seus próprios.
Assim, enquanto os delegados de 134 países estiverem discutindo como lançar e como organizar a chamada Rodada do Milênio, entidades favoráveis e contrárias à liberalização estarão realizando marchas, comícios, cerimônias religiosas e seminários sobre as várias consequências da integração comercial.
Estão, em Seattle representantes de interesses tão díspares quanto os dos produtos agropecuários americanos, favoráveis à produção e exportação de alimentos geneticamente modificados e de carne de animais anabolizados e dos produtores europeus, que defendem o comércio de alimentos obtidos com insumos da agricultura mais tradional. O mesmo contraste existe entre os defensores das populações mais pobres do mundo e os operários do primeiro mundo interessados na preservação de seus empregos e em combater a transferência de indústria de seus países para o Terceiro Mundo.
Além dos protestos nas ruas e da miríade de conferências e entrevistas para os cerca de três mil jornalistas esperados, os manifestantes prometem várias ‘‘ações diretas’’ para sublinhar sua mensagem.
Três deles foram presos no sábado quando tentavam fixar uma bandeira contra a OMC num lugar proibido. ‘‘Nós usaremos maneiras criativas e dramáticas, mas o objetivo de tudo é apresentar uma crítica real sobre a OMC’’, disse Mike Dolan, diretor da Campanha de Comércio dos Cidadãos e um dos líderes durante a fase preparatória do ‘‘festival de resistência à globalização’’.

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