Retorno às soluções simples
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de agosto de 1997
Fernando Miranda 
A participação do Brasil no comércio mundial tem sido de 1% na média dos vinte últimos anos. Não passamos disso e temos para este ano uma expectativa de um déficit de 10 a 11 bilhões de dólares na balança comercial. Necessitamos atacar em três frentes para mudar o quadro. Primeiro, uma mobilização nacional de pequenas e médias empresas para o comércio exterior; ao mesmo tempo, preservar e dar oxigênio às que estão em plena atividade, enfrentando o dia a dia de um trabalho desgastante, sem modernidade; e terceiro, preparar o futuro, escolhendo o melhor caminho.
Vamos por partes. A mobilização das pequenas e médias empresas aumenta a produção, os números da balança comercial e a geração de empregos. Muitos empresários não chegam ao comércio exterior porque se assustam com as dificuldades iniciais, com a falta de informações e o medo do desconhecido. O aumento do consumo interno devido a estabilidade do real é um fator contrário às mudanças.
No mundo veloz das tecnologias não se reinventa a roda, mas pouco a pouco se identifica na simplicidade um instrumento para mobilizar as pessoas para as atividades exportadoras e para trazer as experiências e motivações para a formatação de uma política de comércio exterior eficiente dentro de novas realidades modernas.
Nos Estados Unidos, na Universidade de Harvard no início do século, nos idos de 1908, o pragmatismo americano ganhou reforço na caixa preta do sucesso, com os estudos e os exemplos dos cases (casos), um sistema simples e competente que mostrou aos iniciantes caminhos atingir o sonho americano.
Para quem se inicia e para cooptar pessoas para a atividade exportadora, os programas básicos e onde ocorrem simulações em cima de casos reais são fundamentais. Quanto mais simples melhor, principalmente indo buscar essa mobilização no interior do País e junto às áreas de produção.
Pouco a pouco o iniciante vai encontrar algumas verdades que lhe ajudam a alavancagem no comércio exterior. E verá que parcerias, verdadeiros casamentos de interesses, por exemplo com parceiros do Mercosul, ajudam muito. E quem trabalhar com objetivos claros, tais como valorizar ao máximo sua majestade, o cliente, o consumidor, é estar ajustado com os nossos tempos.
E os que estão na atividade exportadora, no mar encapelado das mudanças, esperando sobreviver e mais ousadamente até crescer? Sentar em volta da mesa e conversar fazendo correções de rumos e procurando soluções, é simples e milenar e de uso e costume dos Presidentes americanos, para trabalhar com as realidades. Duas boas notícias sinalizam, entre tantas outras, a certeza das soluções simples: 1ª - Há duas semanas reuniram-se no Rio o Ministro da Fazenda Pedro Malan, o Presidente da Associação Brasileira do Comércio Exterior (AEB) Marcus Vinicius Pratini de Moraes e alguns empresários com problemas mais cadentes no universo das exportações brasileiras.
É uma prática que vai se repetir em prazos curtos e em outras esferas de decisões realizando um anseio de todos nós, em que o empresário exportador transfere sua realidade aos gabinetes ministeriais para tornar as soluções mais terra-à-terra, rápidas e objetivas. E na busca de descomplicação do dia a dia do comércio exterior, a Sociedade Consular do Paraná, com 60 consulados envolvidos, vai realizar um seminário de soluções práticas.
São duas iniciativas, uma nacional (Ministro Malan/AEB) e outra estadual (Sociedade Consular e Associação Comercial do Paraná), entre centenas de outras em todo o País. A simplificação do comércio exterior brasileiro faz parte de uma das muitas estratégias de alavancagem das nossas exportações. A reforma da nossa Constituição cidadã com redução substancial do custo Brasil e dos custos estaduais, pode ser antecipada no dia a dia de reuniões ministeriais, ou seja precisamos de mais um dispositivo Fast-Track, ou seja, uma vida rápida tupiniquím.
E o futuro do Comércio Exterior brasileiro? As linhas são simples. O Brasil têm que se modernizar, ter nitidez do que quer, unificar o discurso, simples no conceito e de difícil operacionalização porque somos complicados. Daí a necessidade do retorno à simplicidade na execução de uma política de comércio exterior. Sabemos mas não praticamos. Por exemplo: não basta informatizar, através do Siscomex, o processo burocrático, e sim simplificar os passos. Idem para os créditos e financiamentos compatíveis cujos acessos possuem barreiras visíveis e invisíveis, principalmente para os que estão produzindo e explorando.
É importante reforçar a nossa estrutura nacional, voltada à exportação, com o Mercosul em termos de parcerias, na União Européia e na APEC junto com o Pacto Andino. Enfim, salvaguardas para enfrentar as turbulências da ALCA e a política agressiva e unificada dos Estados Unidos de queimar etapas passando por cima do Mercosul e da própria NAFTA, o que não consulta aos interesses do Brasil.
A modernização passa por uma política efetiva de mobilização (aumento do número de participantes no processo exportador), promoção comercial, e de reforço aos que estão em plena batalha, através de simplificação e créditos adequados, ou seja, implodir com o custo Brasil e as ineficiências que o cercam, mas dar ao mesmo tempo impulso às regras claras de uma política externa de comércio exterior extremamente pragmática.
A aquisição, associação ou parceria são os caminhos que despontam com mais força no Mercosul e que representam uma oportunidade até então desconhecida na América Latina. A reforma do sistema tributário, harmonizado com os países desenvolvidos, e ajustes que estimulem a eficiência serão alguns fatores para zerar o custo Brasil.
Usar a tecnologia da informação voltada aos problemas do dia a dia do comércio exterior é ampliar a massa enorme de usuários da Internet e também de possíveis exportadores brasileiros.
O comprador, o consumidor dos produtos brasileiros, será o grande beneficiário se descomplicarmos o comércio exterior brasileiro. Compreender isso é entrar de corpo inteiro na modernidade, no mundo negocial e ver que em poucos anos o Brasil mudou porque as nossas cabeças mudaram e, portanto, a nossa cultura também, e essa transformação de adaptação às mudanças pelos seus desdobramentos é mais importante para o Brasil do que a grande passagem do final do século e início de um novo milênio.
- FERNANDO ANTÔNIO MIRANDA é diretor da Associação Brasileira de Comércio Exterior do Brasil - AEB, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Associação Comercial do Paraná - Concex, advogado e empresário


