Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
Uma retaliação do governo brasileiro às sanções econômicas impostas pela Argentina está provocando a retenção de aproximadamente 50 caminhões carregados com produtos agrícolas na Estação Aduaneira de Interior (Eadi) de Foz do Iguaçu. Pertencentes a importadoras brasileiras, essas cargas são procedentes da Argentina e do Paraguai.
A medida foi tomada há dez dias pelo Ministério da Agricultura. O governo brasileiro ‘‘ressuscitou’’ a portaria 182/98, de outubro do ano passado, que impede a entrada fracionada no País de produtos importados. Mesmo em vigor há um ano, a portaria só foi posta em prática após o agravamento das relações comerciais entre Brasil e Argentina. Na semana passada, o governo argentino confiscou 37,2 mil pares de calçados brasileiros que estavam retidos na aduana de Buenos Aires desde o início do mês.
O desembaraço (fiscalização da carga e expedição de documentos feita pela Receita Federal) fracionado permitia que um montante importado por empresa brasileira entrasse no País, por etapas, em um prazo máximo de quinze dias. Uma operação envolvendo a importação de mil toneladas de arroz, por exemplo, era feita em 20 caminhões. À medida que cada caminhão chegava à aduana, a carga era liberada.
Agora, o pedido de desembaraço só pode dar entrada quando a totalidade do produto de cada Licença de Importação (LI) estiver na estação aduaneira. O reflexo prático da medida é o aumento dos gastos com o transporte, devido aos dias parados, e a falta de caminhões nas transportadoras. ‘‘Fatalmente esses custos serão repassados para o consumidor’’, disse à Folha Mário Alberto Camargo, presidente da Associação dos Despachantes Aduaneiros de Foz do Iguaçu (Adafi), que reúne as 30 empresas do setor na cidade.
Segundo Camargo, a medida – que visava os argentinos – prejudicou principalmente os paraguaios. Isso porque 70% das cargas que se beneficiavam do desembaraço fracionado eram procedentes do Paraguai. Camargo disse que já há empresas brasileiras suspendendo contratos de importação com Paraguai e Argentina ou buscando outras portas de entrada no País – portos, por exemplo, no caso argentino.
Apenas um cliente da empresa de Camargo tinha ontem 18 caminhões carregados com milho importado do Paraguai retidos no pátio da Eadi. As primeiras cargas chegaram no último dia dia 19. Estavam à espera de outros dois caminhões, para perfazer um lote de 500 toneladas do produto. Os dois últimos caminhões chegariam a Foz ontem e o processo de desembaraço deverá ser iniciado apenas hoje.
O motorista Antônio Gomes, de 40 anos, responsável por uma dessas cargas, está na Eadi desde o dia 19. Ele viaja acompanhado da filha, de 14 anos. Os dois fazem as refeições e dormem no próprio caminhão. Ontem, o estoque de mantimentos acabou e Gomes teve que fazer uma nova compra. A Adafi não tinha feito até ontem uma estimativa do prejuízo provocado pela medida na fronteira.

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