Restaurantes registram queda de até 30% no movimento
Alguns estabelecimentos estão apostando no delivery para tentar aumentar o faturamento e amenizar os efeitos da diminuição da clientela
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de junho de 2019
Alguns estabelecimentos estão apostando no delivery para tentar aumentar o faturamento e amenizar os efeitos da diminuição da clientela
Aline Machado Parodi - Grupo Folha 

Caiu, está ruim, muito baixo. Estas são respostas padrão dos donos de restaurantes sobre o movimento nos últimos meses. Eles também reclamam da queda no faturamento. A redução da clientela está entre 20% e 30%. Alguns estão aderindo aos aplicativos de delivery como alternativa para atrair novos clientes.
Há 16 anos no ramo, Juliano Couto, dono de um restaurante próximo do Hospital Santa Casa de Londrina, contou que muitos de seus clientes estão trazendo marmita de casa para economizar. Ele trabalha com marmita e PF (prato feito) e parte da clientela é de pessoas de outras cidades que vêm a Londrina para atendimento médico.
Segundo ele, tem sido difícil manter a margem de lucro. “Não consigo baixar o preço (para atrair mais clientes) para não prejudicar a qualidade. Tenho tentado manter o preço”, explicou. Ele pensou em contratar um aplicativo de delivery como forma de divulgar o restaurante, mas ponderou os custos e desistiu. “Vai sair mais caro com a taxa de entrega”, disse.
Carlos Eduardo Chimentão, dono de um restaurante no Centro, viu o movimento cair 25% entre fevereiro e março. Ele já esperava uma redução, principalmente após suspender o pagamento com cartão-alimentação, mas não neste percentual tão alto. “A queda foi de 25%, mas só 10% passavam cartão-alimentação. Teve queda no movimento como um todo”, analisou.
Para evitar maiores perdas no faturamento, Chimentão aposta no gerenciamento consciente da cozinha. “Controlo o desperdício. Faço menos comida para hoje e já inicio o pré-preparo de amanhã. Se o movimento for grande eu utilizo o que já está pre-preparado”, explicou.
A queda na demanda nas refeições fora de casa é reflexo do empobrecimento da renda da população. “Com o desemprego menos pessoas estão indo comer fora. Londrina está devendo 10 mil postos de trabalho com carteira assinada”, comentou o economista Marcos Rambalducci, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e colunista da FOLHA.
Os trabalhadores estão trocando o almoço no restaurante pela marmita e utilizando o ticket refeição no supermercado. Também há uma mudança de habito de consumo. “Quem pedia à la carte está optando pela marmita e quem pedia marmita média está trocando pela pequena e assim por diante”, exemplificou o economista.
Em Curitiba, o gasto da refeição caiu de R$ 32,83 para R$ 30,61, segundo levantamento realizado pela Pesquisa+Valor, apoiada pela Ticket, marca da Endered Brasil. “Apesar da série histórica de aumento do custo no preço dos alimentos ter sido o principal responsável pela inflação de 3,75% no ano passado, observa-se que a menor demanda levou restaurantes a adotar promoções e estratégias de preços para manter a freguesia”, comentou Vivian Yushiura Ramos, gerente de produtos da Ticket.
A pesquisa mostra que o preço médio da refeição completa no Brasil - prato principal, sobremesa, bebida e café - ficou em R$ 34,84 em 2018. Só o prato equivale a 57% do gasto total, enquanto a sobremesa chega a 21% do valor; a bebida, 12%; e o cafezinho, 10% do gasto na hora do almoço. A pesquisa foi feita em 51 cidades.
O estudo apontou que mais de 60% dos trabalhadores formais preferem almoçar em estabelecimentos com pratos comerciais e em autosserviços. Nestes locais as refeições individuais são responsáveis por mais de 60% da frequência diária. Junto com o sistema à la carte, os três receberam em 2018, de acordo com a pesquisa, metade do gasto do trabalhador no almoço, R$ 33,4 bilhões, e representaram 44% do tráfego de consumidores.
O economista Agostinho Pascalicchio, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirmou que a crise está impondo mudanças de comportamento do brasileiro. “Quando temos uma tendência de dois anos dizemos que há mudança de habito. E é isso que vemos na alimentação fora do lar. As pessoas que comiam no comercial estão indo para a marmita. A crise está impondo hábitos de comportamento”, argumentou o professor.
Ele acredita que este comportamento deve se manter e exigirá um gerenciamento mais eficiente dos estabelecimentos para contornar os custos. “Não cabe mais aquele gerente que improvisa. Ele precisa fazer projeção de gastos, olhando os preços com uma semana de antecedência”, disse. Para o professor, o segmento do self-service a quilo é o que fica mais sensível a essa mudança, além de ter o desafio de competir com outros estabelecimentos. “É um desafio muito grande a ser superado”, ressaltou Pascalicchio.
Marmitas são nicho que deve crescer
A Abrasel Londrina (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) afirma que houve nos últimos anos um crescimento expressivo no consumo de marmitas, em função do aumento da diversidade de opções, custo-benefício, aplicativos e plataformas online que facilitam o acesso e a compra pelo consumidor.
“Embalagens mais eficazes, facilidade de fazer o pedido e entrega rápida, facilitam a vida do consumidor que pode desfrutar de uma boa refeição sem sair de casa”, afirmou Vinícius Donadio, diretor-executivo da Abrasel Londrina.
Segundo ele, a oferta de marmitas aumentou não só pelos restaurantes tradicionais, mas também por microempreendedores que viram uma solução rápida e com baixo investimento para abrir um negócio próprio. “Acreditamos que esse nicho ainda está em fase de crescimento, pois a falta de tempo para cozinhar das pessoas, aliado as grandes opções de sistemas de delivery, vão ganhar cada vez mais espaço na casa dos clientes”, disse.
O empresário Thomaz Setti trabalha com dois aplicativos para os pedidos do seu restaurante. Ele considera as taxas cobradas pelos aplicativos ainda muito salgada, mas pensa que vale a pena pela praticidade. “Te dá (a entrega) um up grade no faturamento. É uma mesa que você não tem, mas que gera faturamento. Você consegue atender mais do que capacidade do salão”, salientou.
Ele atende apenas no jantar, mas estuda abrir a entrega para o almoço. “Ter um cardápio mais enxuto e só para entrega. É uma possibilidade para o segundo semestre”, revelou Setti.
Ernani Cesar Raymundi Filho, proprietário de um restaurante e açougue de cortes especiais, relutou em utilizar os aplicativos, mas após receber uma proposta diferenciada decidiu testar a plataforma. Ele afirmou que percebeu um incremento nas vendas, em função da promoção de cupom que o aplicativo oferecia, mas não teve alta no faturamento. “Aumentou os pedidos de baixo valor. São pedido que pagam pouco”, frisou Raymundi Filho. Segundo ele, o faturamento do estabelecimento está 30% menor do que o ano passado.


