Respeitar a empresa nacional - Antoninho Marmo Trevisan
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de janeiro de 1998
Antoninho Marmo Trevisan 
Não posso aceitar que de uma hora para outra passamos a ser um bando de empresários burros despreparados e incompententes para competir no mundo. Não acredito que só o que é feito por estrangeiros tem qualidade e merece nossa admiração. Não gosto de ouvir que este é um país que não tem jeito e me ofendo profundamente quando, externamente, o Brasil não é tratado com dignidade. Quando ouço o Hino Nacional e participo de eventos que evocam a brasilidade meu coração bate mais forte.
Acredito na cultura brasileira e sei que nossas raízes de índios, negros, caboclos e imigrantes nos dá uma capacidade superior para enfrentar problemas e apresentar soluções criativas.
Quando vejo sul-coreanos depositando dólares em urnas para ajudarem seu país a sair da crise ou assinando listas de adesão contra a compra de produtos importados, penso nesse fenômeno fantástico que é o patriotismo. Que força poderosa é esta, capaz de mover economias ou de levar países a guerras sangrentas? Quem não sente o coração apertado quando viaja ou mora fora do país e vê uma bandeira brasileira desfraldada?
Trato disto porque entendo que é preciso resgatar o valor cultural da empresa brasileira. Não acredito que uma nação forte e poderosa possa ser construída sem que suas empresas sejam igualmente fortes e poderosas. Hoje as verdadeiras embaixadas de países ricos são os departamentos corporativos de suas empresas. Cada vez mais espalhadas pelo mundo e cada vez mais detentoras da riqueza dos tempos atuais; informação, em tempo real.
E a empresa nacional? Para onde está indo? Qual o seu futuro? Fechar? Fundir-se com uma multinacional? Ou comprada para servir como ponta de lança e, em seguida, desaparecer? Que destino triste para um povo tão vibrante, tão sensível e tão rico.
É preciso enxergar saídas. Tomar a lista dessas 300 mil empresas médias brasileiras que a Secretaria da Receita Federal cadastra com tanto carinho e ir buscar o que fazem, como fazem, o que tem de melhor e enumerar tudo isso num benchmark verde-amarelo? Seria o primeiro passo. Criar um fórum permanente com os secretários de indústria e comércio estaduais e montar seminários para apresentar os casos selecionados. Muitos estão fazendo pequenas revoluções em seus Estados. Reunir um comitê formado pelas federações das indústrias para organizar feiras nos principais centros comerciais do mundo, para captar tecnologia junto à empresas especializadas e difundir esses novos métodos e processos entre as organizações brasileiras. Por intermédio de consórcios formais seriam tomados volumes expressivos de recursos no exterior e repassados numa espécie de cooperativa. Levantaria junto a essas 300 mil empresas as carências de formação profissional e junto com as melhores escolas prepararia programas específicos de reciclagem.
Especialistas em design empreenderiam uma verdadeira maratona de criação e dariam um padrão visual ao produto e a empresa brasileira. Ao governo caberia assumir o compromisso de controlar suas contas, não tomar mais impostos dessas empresas, apressar as reformas estruturais para diminuir o custo Brasil e fazer dos consulados e embaixadas brasileiras centros de difusão comercial agressivos e ágeis. De quebra, o governo poderia puxar o côro dos que torcem pela empresa brasileira e ajudar a levantar a auto-estima dos empresários locais.
ANTONINHO MARMO TREVISAN é presidente da Trevisan Auditores e Consultores.


