Paulo WolfgangFator qualidadeProfessor Lázzari, da UFP: resíduos de agrotóxicos no milho são desafio que começa no campo O maior entrave à cadeia produtiva do milho ainda é o risco de contaminação por agrotóxicos. Os resíduos podem estar no fubá, flocos ou qualquer outro alimento derivado, produzido pela indústria moageira nacional, além das carnes de aves e suínos que se alimentam basicamente de milho. As indústrias não têm controle eficaz dos resíduos, mesmo sabendo que a quantidade de agrotóxicos usados no processo de armazenamento (da matéria-prima) é muito grande. Mas, se o setor industrial pretende manter seu espaço num mercado cada vez mais concorrido e exigente, deve pensar no assunto e adotar medidas que evitem esta ameaça ao consumidor.
O alerta é do professor Flávio Antonio Lázzari, da Universidade Federal do Paraná, um dos expositores de ontem do ‘‘1º Ciclo de Palestras para Atualização de Técnicos e Produtores de Algodão, Feijão, Milho e Soja’’, que se realiza em Londrina, no Parque Ney Braga. Lázzari falou sobre ‘‘Fatores de Qualidade na Produção, Colheita, Armazenamento e Comercialização’’.
Como a origem do problema está na zona de produção, especialmente na armazenagem, Lázzari reconhece que é difícil reduzir o uso de produtos químicos. No campo, a conscientização teria um papel importante para racionalizar o uso de veneno. Mas as indústrias poderiam monitorar melhor a procedência dos lotes e diagnosticar eventuais excessos. Hoje também não há monitoramento ou controle dos níveis de toxina, outro complicador que compromete a qualidade dos derivados de milho, tanto os destinados à ração animal como à alimentação humana.
O próprio técnico admite que a solução não é fácil e que o consumidor continua correndo um risco sempre presente uma vez que o tratamento químico dos grãos depende da qualidade da mão-de-obra. O indivíduo que faz o tratamento do milho na tulha - lembra o professor - em geral não é devidamente orientado.
Mercado é das refinações Sobre o mercado mais promissor para o grão de milho, o professor Flávio Lázzari disse ontem de manhã, em entrevista a este jornal, que o mercado tende a contemplar matérias-primas cujas características se voltem para a ‘‘moagem a úmido’’, concentrado nas refinações. Neste segmento, ocorre a extração de maior quantidade de ingredientes fornecidos a outros tipos de indústrias, abrangendo os ramos farmacêutico, de bebidas, alimentação, adoçantes, celulose, corantes, frutoses, glucose, dextrinas, etc.
Portanto, o setor que mais deve crescer na absorção de matéria-prima serão as refinações, pela enorme gama de itens que atende a outros segmentos industriais.
Embora o mercado de matéria-prima vislumbre mais espaço para o processo de ‘‘grão úmido’’ - pela abrangência do segmento industrial que mói grãos com essa característica - isto não impede que a coloração preferencial seja a ‘‘alaranjada’’, que é característica intrinseca dos grãos duros. Um exemplo poderia ser a indústria de ração que precisa da xantofilas, para ‘‘colorir’’ o frango. A indústria de ração vai preferir o milho de coloração forte.
‘‘O uso de grãos dessa cor reduz a necessidade da importação do produto utilizado pelos abatedouros de frangos, para deixar o produto com aspecto mais agradável’’, explica. Se o componente que confere essa coloração for encontrado na ração, certamente reduzirá a dependência da adição de xantofilas, um aditivo corante extraído de uma planta chamada popularmente de ‘‘margarida’’, encontrada predominantemente no Peru e México. Milho alaranjado, portanto, pode reduzir custos com xantofilas.
Teor de óleo Perguntado sobre o não-pagamento, por parte das indústrias, de um diferencial para o grão duro - desejado pelo setor -, Lázzari observou que isto só vai acontecer quando a genética oferecer um grão com alto teor de óleo, ou milho com energia mais metabolizável.
Observa, porém, que o produtor do grão desejado pela indústria - no caso o grão duro e de coloração forte -, já tem o retorno esperado: é que a mercadoria é vendida com mais facilidade. Desta forma, se o produtor não recebe adicional pelo fornecimento de um grão melhor, pelo menos está garantindo mercado para o seu produto; ele vende mais rapidamente, o que não ocorreria se o tipo da matéria-prima não fosse aquele desejado pela indústria.
Sobre a questão preferencial, Lázzari disse durante a sua palestra que ‘‘quem manda no mercado é o consumidor’’ e se as indústrias estão preferindo determinado tipo de grão, é porque sua clientela expressa este desejo. Em última análise, o consumidor final é quem manda no mercado. Os outros elos da cadeia produtiva simplesmente têm que corresponder a esta expectativa. É uma nuance de mercado, uma nova realidade dentro da globalização.

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