O Brasil pode encerrar o primeiro trimestre de 1998 com um nível de reservas superior ao existente no trimestre anterior à crise asiática. O consultor Roberto Padovani, da consultoria Tendências, refez suas estimativas para fevereiro e março e avalia que o ritmo de entrada líquida de recursos observados em fevereiro (cerca de US$ 5 bilhões no fluxo cambial) pode ser repetido em março, elevando, ao final daquele mês, as reservas para cerca de US$ 65 bilhões.
Se este cenário for confirmado, a média do primeiro semestre deste ano seria de US$ 63 bilhões, um valor superior à média de US$ 62 bilhões registrada entre julho e setembro de 1997. ‘‘Caso se confirme, o Brasil terá reposto todas as reservas perdidas durante a crise asiática’’, observa Padovani.
Ele ressalta que esta estimativa tem como pressuposto que o Banco Central mantenha em março uma taxa de juros atraente para o investidor estrangeiro e o cenário externo não apresente novas complicações. Na avaliação dos analistas da consultoria Tendências, o BC reduz a taxa de juros, na próxima semana, para 31,0%, no mínimo. ‘‘Este é o teto das nossas projeções’’, diz Padovani. Segundo ele, mesmo uma taxa um pouco inferior a esta pode atrair uma quantidade expressiva de capitais externos em março.
Para o economista-chefe da MCM Consultores, Nilton Rosa, um conjunto de fatores explica o excelente e ‘‘surpreendente’’ processo de recomposição das reservas cambiais brasileiras. ‘‘A aprovação das reformas pelo Congresso Nacional reduziu a percepção sobre o risco Brasil, os juros elevados atraem capital externo e uma certa acomodação da crise asiática deixou mais clara a avaliação de que os problemas estão localizados naquela região’’, lista Rosa.
Ele avalia que uma parte significativa dos recursos é capital de curto prazo, que está entrando para aproveitar as regras do Banco Central que permitem, até o final de março, captar recursos por um ano ou renovar papéis anteriores pelo prazo de seis meses. ‘‘Mas o círculo é virtuoso, pois em breve começam a entrar os recursos destinados à privatização, especialmente das companhias do setor elétrico’’, diz ele.
Rosa também estima que a entrada de recursos externos abre espaço para que a taxa de juros caia com mais rapidez. ‘‘Mas não acredito que voltaremos aos níveis pré-crise este ano’’, acrescenta. ‘‘O Banco Central vai continuar cauteloso’’, pondera.
Preocupação O economista Felipe Macedo, do Citibank, avalia que o fluxo de dólares deve se manter em março, mas em um ritmo um pouco menor. As reservas devem alcançar no fim do próximo mês cerca de US$ 60 bilhões. Macedo pondera que as notícias mais recentes que vêm da Ásia são ‘‘preocupantes’’. ‘‘A avaliação anterior, de que a crise estava superada, não está se mostrando tão verdadeira’’, diz ele, citando as dificuldades de Japão, Indonésia e Tailândia.
Ele lembra que há sinais indiretos desta nova preocupação com os países asiáticos, como a queda das bolsas norte-americanas e de Londres. ‘‘Ainda há dúvidas sobre o cenário externo e isso pode provocar uma redução ou interrupção nos recursos para os países emergentes ao longo do ano’’, pondera.

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