As reservas do Brasil em moeda estrangeira bateram um recorde em agosto e chegaram, na terça-feira, a US$ 63 bilhões, informou ontem o diretor de Política Econômica e Monetária do Banco Central, Francisco Lopes. O ‘‘confortável’’ tamanho das reservas mostra, segundo Lopes, que o País não precisa mudar tão cedo sua política de câmbio, que prevê uma gradual redução do valor do real em relação ao dólar. Lopes foi o segundo conferencista em seminário da Câmara dos Deputados para discutir três anos de Plano Real.
As reservas são necessárias para garantir tranquilidade no momento em que o País terá um déficit também recorde em suas transações com o exterior. ‘‘Estamos ganhando, e não perdendo reservas’’, comentou Lopes, para justificar seu otimismo em relação ao déficit em transações conrrentes do País, a diferença entre o que o Brasil gasta no exterior e o que ganha no comércio e na prestação de serviços em moeda estrangeira. Esse déficit, segundo Lopes, pode chegar neste ano de 4% e até 5% do PIB, quase US$ 40 bilhões.
O diretor disse ter certeza de que o País tende a reduzir o déficit, nos próximos anos, para algo em torno de 3% do PIB e que, enquanto isso, é possível financiá-lo com empréstimos e investimentos externos, incluindo a participação estrangeira nos leilões de privatização. ‘‘Parece que a crise nos países asiáticos acabou nos beneficiando, ao Brasil e à América Latina’’, disse Lopes. Na opinião do diretor do BC, a crise responsável pela desvalorização das moedas nos chamados tigres asiáticos, como a Tailândia e a Malásia, tornou os mercados na América Latina mais atraentes.
Desvalorização O real, nos últimos 12 meses, sofreu uma desvalorização efetiva de aproximadamente 5% em relação ao dólar, informou Lopes aos deputados da Comissão de Economia, Indústria e Comércio da Câmara, que patrocina o seminário sobre os três anos de Plano Real. Lopes chegou à estimativa de 5% somando a desvalorização do real no mercado interno, de pouco mais de 2%, com a desvalorização do próprio dólar provocada pela inflação norte-americana.
‘‘Em 12 meses a cotação do dólar subiu 7,5% mais ou menos, enquanto que o índice de preços para o consumidor, medido pelo IBGE, subiu 4,8%’’, relatou o economista. ‘‘Isso significa que não estamos acelerando a desvalorização, mas que o câmbio está andando por cima da inflação’’.
Respondendo a uma pergunta, Lopes afirmou que o País poderá ter uma política de livre conversibilidade para o dólar, sem o atual sistema de bandas que leva o Banco Central a intervir sempre que a cotação ultrapassa os limites mínimo e máximo oficiais.
‘‘A livre flutuação será um dos testes finais, para mostrar que a estabilização deu certo’’, comentou. ‘‘Mas temos de ter uma política de estabilização consolidada, uma política monetária com instrumentos eficientes e uma reputação de austeridade que tem a ver com estabilidade política’’, detalhou. Ele insistiu em dizer que ‘‘não há razão para mudar a política cambial’’.
Renda nacionalLopes disse que, com o atual ritmo de crescimento econômico e populacional, a renda per capita brasileira será comparável à da Espanha em 20 anos. ‘‘Isso nos levará a ser uma Espanha em 20 anos’’, disse Lopes aos deputados da Comissão de Economia, Comércio e Indústria. Se o Brasil será uma Espanha em termos de renda per capita em 2017, isso significa que o rendimento anual do brasileiro, em média, será de cerca de US$ 16 mil. Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) a renda per capita brasileira foi de US$ 4.780 em 96.
Lopes usou a previsão como meio de sustentar que ‘‘é notável’’ o País manter uma expectativa de crescimento econômico de 4% neste ano, ao mesmo tempo em que a inflação se conserva baixa para os padrões nacionais. Para ele - e toda a equipe econômica do governo - consolidar a estabilidade da moeda é o meio de o País conseguir saltar de patamar, inclusive na área social.

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