Arquivo Folha‘Pé atrás’O presidente do Banco Central, Gustavo Franco: ‘‘As notícias são boas, mas ainda temos que aguardar’’O presidente do Banco Central, Gustavo Franco, disse à ontem que a avalanche de recursos externos que ingressaram no País neste início de ano e provocaram um crescimento superior a US$ 2 bilhões nas reservas internacionais ainda tem que ser vista com cautela. ‘‘As notícias são boas, mas temos que aguardar porque as coisas acontecem com muita velocidade’’, disse Franco.
Na avaliação da chefe do Departamento de Operações Internacionais (Depin) do BC, Maria do Socorro Carvalho, a confiança do investidor interno, aliada aos sinais de recuperação na Ásia, trouxe o dinheiro externo de volta ao País. Ela confirmou o aumento de US$ 2 bilhões nas reservas cambiais e assegurou que, além do crescimento de US$ 1 bilhão em janeiro, ‘‘acrescentamos mais de US$ 1 bilhão nos primeiros três dias de fevereiro’’.
Na visão de Gustavo Franco, ‘‘existe uma melhoria no sentimento internacional em relação ao Brasil’’, mas ainda é preciso analisar o volume de entrada de recursos. ‘‘E observar as operações que estão sendo feitas, pois o ingresso de investimentos estrangeiros, até agora, ainda está muito diversificado’’. Franco insiste, no entanto, que a aprovação das reformas no Congresso Nacional continua sendo fundamental para que os investidores externos tenham uma percepção definitiva da estabilidade do País.
Já a chefe do Depein foi mais incisiva e otimista. ‘‘Chegamos a um nível de reservas superior a US$ 54 bilhões’’, disse ela. Maria do Socorro referiu-se às reservas no conceito de liquidez internacional, que considera créditos a serem recebidos pelo País. Pelo conceito de caixa, no entanto, onde são contabilizados apenas os recursos efetivamente disponíveis, a chefe do Depin também confirmou que o total ‘‘já superou US$ 53 bilhões’’.
Ao contrário do diagnóstico do mercado, que atribuiu o crescimento das reservas à venda de dólares acumulados pelos bancos durante a crise de outubro, Maria do Socorro disse que ‘‘é fluxo positivo mesmo’’. Acrescentou: ‘‘É dinheiro entrando, no duro, mas também é preciso esperar para ver se o fluxo se consolida’’.
Bolsas Como o chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central, Altamir Lopes, Maria do Socorro confirma que grande parcela do dinheiro externo que está ingressando no País destina-se, principalmente, a aplicações em bolsas de valores. ‘‘A maior parte é portfólio’’, disse Maria do Socorro, enquanto Lopes preferiu o jargão técnico e confirmou: ‘‘é anexo IV’’.
Os dois também asseguram que o restante do dinheiro ingressa nas linhas da chamada ‘‘Resolução 63-Caipira’’ - recursos captados por bancos brasileiros para repasse interno ao setor rural - e, ainda, investimentos diretos. Nesse caso, o dinheiro que entra fica no País. Como para a implantação ou compra de uma fábrica ou indústria, por exemplo.
Na análise de Franco e também da chefe do Depin os recursos destinados às bolsas de valores sinalizam que o capital que está recompondo a reserva não é, necessariamente, um capital de curto prazo que pode sair do País de uma hora para outra. ‘‘Os recursos aplicados em ações não têm prazo e é capital de risco’’, disse Maria do Socorro.
Maria do Socorro não esconde que o crescimento das reservas surpreende e está além das expectativas do Banco Central. Ela lembra que, somente em janeiro, foi de US$ 1 bilhão o total de vencimentos de papéis emitidos pelos setores público e privado. ‘‘Tudo foi renovado e ainda deu sobra’’, disse a chefe do Depin, referindo-se ao crescimento das reservas em janeiro. Assim, não fosse o volume alto de vencimentos, o aumento de reservas ainda teria sido maior, analisou. Para este mês, segundo antecipou Maria do Socorro, ‘‘o total de vencimentos é próximo de US$ 500 milhões’’.

mockup