Um desvio subterrâneo na divisa dos municípios de Ortigueira e Telêmaco Borba é a prova mais evidente de que o Rio Tibagi jamais será o mesmo. O túnel foi aberto para desviar a água de seu leito natural e permitir a construção da barragem que vai formar o reservatório da Usina Hidrelétrica Mauá, a 230 quilômetros de Londrina.
Atualmente, cerca de 1.900 operários trabalham em vários pontos da obra: uma boa parte na construção da barragem, outros preparando o concreto que é transportado em caminhões, além da casa de força e da futura subestação. O que mais chama a atenção é a grandiosidade da barragem, cuja estrutura já ultrapassa 60 metros de altura e, quando estiver pronta, chegará a 85 metros servindo de ponte entre os dois municípios. O início do represamento está marcado para daqui a pouco mais de três meses, dia 18 de novembro.
Segundo o engenheiro Ricardo Rothstein, de 27 anos, um dos responsáveis pela obra, dois terços da barragem estão concluídos, sendo iniciada agora a estrutura do vertedouro, por onde vai escoar o excesso de água. Já foram produzidos mais de 400 mil metros cúbicos de concreto compactado com rolo (CCR), o suficiente para construir cinco estádios do tamanho do Maracanã. Rothstein explica que o concreto usado na estrutura é diferente do concreto convencional. O CCR é produzido com uma quantidade menor de cimento e água porque tem a função de manter a estabilidade da barragem.
Apesar de toda a imponência da barragem, a geração de energia se dará em outro ponto a 1.922 metros de distância, onde se localiza a casa de força. Do reservatório, a água seguirá por um túnel de adução até um ponto denominado câmara de carga. A partir daí, a agua seguirá por três dutos forçados em uma queda de 120 metros até a casa de força, onde ficam as três unidades geradoras da hidrelétrica. A usina vai gerar 361 megawatts (MW) de energia, sendo 350 MW na casa de força principal e 11 MW em uma casa de força complementar. A energia é suficiente para abastecer uma cidade com pouco mais de 1 milhão de habitantes.
O rotor da primeira unidade geradora foi montado há poucos dias. A peça, com 27,6 toneladas de peso, tem 3,8 metros de diâmetro por 1,96 de altura. Sua função é converter a energia hidráulica em energia mecânica antes de ser transformada em energia elétrica. A previsão é de que a primeira unidade geradora entre em operação no dia 22 de abril do ano que vem. As outras duas unidades geradoras serão montadas ainda este ano e vão entrar em operação em junho e agosto do ano que vem.
Depois de passar pela casa de força, a água é liberada pelo canal de fuga e reencontra o leito do rio. A energia gerada seguirá até a subestação conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN). As obras para a implantação das duas linhas de transmissão foram iniciadas no mês de junho e devem ser concluídas em março do ano que vem.
Programas socioambientais
O engenheiro Ricardo Rothstein diz que, em respeito à legislação ambiental, a usina foi concebida ''para não tomar muito espaço'' e que o consórcio está implementando 34 programas socioambientais para ''minimizar o máximo possível o impacto que existe na construção de uma hidrelétrica''. Entre os programas estão o monitoramento das margens do rio, do clima, da qualidade da água na área de influência da usina; o resgate do patrimônio histórico, cultural e arqueológico; o resgate, monitoramento e conservação da fauna e da flora, e o remanejamento da população ribeirinha e indígena atingida pelo reservatório.
O consórcio garante que já foram indenizadas 83% das 237 propriedades que serão alagadas - apenas seis desapropriações foram resolvidas na Justiça. Além da indenização, mais de 70 famílias de produtores rurais tiveram direito a reassentamento e serão beneficiadas com outro lote contendo a infraestrutura necessária para que voltem a produzir.
O Consórcio Cruzeiro do Sul assinou 24 contratos para fornecimento de energia. A receita estimada com estes contratos é de R$ 6 bilhões para os próximos 30 anos.

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