São Paulo - A escalada da inflação ameaça azedar as negociações salariais do segundo semestre, período que concentra a data-base das categorias mais organizadas do País, como metalúrgicos, químicos, bancários e petroleiros. Alegando dificuldade para absorver ou repassar para seus preços aumentos de custos, as empresas sinalizam que este ano vai ser muito difícil conceder reajustes salariais acima da inflação.
Os sindicalistas reagem dizendo que os trabalhadores não abrem mão do aumento real de salários e já acenam com a possibilidade de greves. ''Se eles endurecerem, vamos endurecer também e eles sabem que a gente não usa de blefes'', afirma Eleno Bezerra, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos da Força Sindical.
Os trabalhadores têm como trunfo o fato de as empresas terem pouco estoque e muitos contratos a cumprir em decorrência do ritmo de atividade, que continua acelerado. ''A indústria nunca produziu, vendeu e lucrou tanto quanto nos últimos meses'', afirma Valmir Marques, presidente da Federação dos Sindicatos Metalúrgicos da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Marques fala em nome de 250 mil metalúrgicos cutistas no Estado de São Paulo, que têm data-base em agosto, setembro e novembro. ''Não vamos ser econômicos na discussão do índice de aumento real'', adianta. ''A idéia é que seja um aumento considerável.''
A mesma disposição é demonstrada pelos químicos, cuja data-base é novembro. ''Vamos brigar pela continuidade do processo de aumento real dos salários'', afirma Sérgio Luís Leite, secretário-geral da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo, entidade ligada à Força Sindical.
Empresários e representantes de sindicatos patronais se esquivam de falar abertamente sobre estratégias de negociação salarial. Nos bastidores, porém, dizem que será difícil conceder aumento real de salários.
No ano passado, a produtividade do trabalho na média da indústria brasileira cresceu 4,2%, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). O ganho de eficiência foi maior que a evolução da remuneração média da mão-de-obra, que teve aumento real de 3,1%. Isso sinaliza que os aumentos salariais foram concedidos sem pressões sobre a inflação. No entanto, a situação hoje é bem diferente.
''O cobertor ficou curto'', afirma Júlio Sérgio Gomes de Almeida, assessor econômico do Iedi. ''A produtividade vai bem, só que é insuficiente para permitir que a média das empresas consiga cobrir o aumento dos preços de matérias-primas fundamentais, a valorização do câmbio e ainda assim continuar com os aumentos de salários.''
Além de desacelerar a concessão de aumentos reais, a pressão inflacionária já começa a comer o poder de compra dos salários, observa Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). ''Os trabalhadores vão negociar agora uma inflação passada de 4% a 4,5% e, mesmo que consigam repor as perdas e ainda conquistem algum ganho real, a perspectiva para os próximos meses é de uma inflação ainda mais alta.'' (M.R.)t

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