São Paulo - A população, especialmente a de baixa renda, sentiu nos primeiros anos do Plano Real, implantado em julho de 1994, o gosto de consumir produtos considerados supérfluos, como iogurte, e passou a ter acesso a bens duráveis, como geladeiras e televisores, graças à estabilização da moeda e à volta do crediário.
Passada uma década, o quadro se deteriorou. Com os salários achatados, o crediário é, hoje, a única alternativa de consumo do brasileiro, que deixou de lado os supérfluos nas compras do dia-a-dia. Até mesmo o frango, que se tornou um dos símbolos do Real pelo fato de um quilo custar menos de R$ 1 durante muito tempo, perdeu o estigma de produto barato. Hoje, o quilo da ave inteira resfriada sai por R$ 2,28 no varejo, segundo pesquisa da cesta básica da Fundação Procon.
De 1994, o primeiro ano de estabilização, para 1995, as vendas de iogurte, por exemplo, cresceram 89,1%, segundo pesquisa da AC Nielsen. Nos anos seguintes, o acréscimo no consumo foi bem menor. No ano passado, no entanto, houve retração de 2,6% ante 2002. As vendas de televisores, outro item de grande saída no início da estabilização, deu marcha à ré. Chegou a bater a casa de 8,5 milhões de aparelhos em 1996, mas fechou o ano passado em 5,3 milhões unidades. O que esses números revelam é exatamente a perda de poder aquisitivo do trabalhador.
Nas contas da LCA Consultores, o rendimento do brasileiro teve um acréscimo de apenas 1,8% de 1994 a 2003. Com os juros elevados e o repique da inflação em 2003, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,2% no ano passado. ''O grosso do custo do reajuste macroeconômico mais uma vez recaiu sobre o emprego e a renda do trabalho. A renda média real dos trabalhadores voltou ao nível de 1994: dos ganhos do Plano Real nada restou'', resume o economista da LCA, Fernando Sampaio.
Na contramão do caminho seguido pelo frango e o iogurte, o crediário, que praticamente renasceu com a estabilização da moeda, ganhou vigor e até hoje continua puxando a economia. Por conta da inflação galopante, até 1994, as compras de bens duráveis eram feitas só à vista ou, no máximo, em duas ou três vezes, com cheque pré-datado, observa o economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Emílio Alfieri. Ele destaca também que o cartão de crédito era praticamente inexistente. É que, com a inflação elevada, os lojistas cobravam preços diferenciados para pagamento à vista e com cartão.
Com a estabilização, o crediário de longo prazo se consolidou. De toda forma, a reativação do crediário teve um efeito pedagógico tanto para as empresas como para o consumidor. Num primeiro momento, provocou a disparada da inadimplência, que atingiu o pico logo no início do Real. Em 1995, a inadimplência líquida (saldo entre carnês não pagos e créditos recuperados no mês em relação as vendas a prazo de três meses anteriores) atingiu 12,5%, mais do que o dobro da registrada em 1994, de 6,1%, segundo a Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
Nos anos seguintes, o nível do calote continuou elevado, com alguns repiques. A situação só entrou nos eixos no ano passado, quando o indicador recuou para 5,1% e se manteve nesse nível entre janeiro e maio deste ano.

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