O crescimento real da renda agrícola em 1997 deverá ser de 5%, em média. Este foi o consenso a que chegaram os técnicos do governo, parlamentares e representantes de entidades ligadas ao setor, reunidos ontem de manhã no Ministério da Agricultura. Na verdade, quem teve de recuar das previsões anteriores foi o governo, que chegou a anunciar aumentos de 14,8%, de 11% e depois de 9% na renda agrícola este ano. Em depoimento na Comissão de Agricultura da Câmara há dois meses, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse que a renda média do agricultor cresceria 11%. Foi contestado pelos parlamentares que pediram reuniões com os técnicos do Ministério para conhecer a metodologia utilizada.
Na reunião de ontem, o coordenador de política agrícola do Ministério da Fazenda, Evandro Fazendeiro, esclareceu que quando o ministro Malan esteve na comissão apresentou uma estimativa com base na renda nominal. ‘‘Muitos economistas defendem o aumento nominal num cenário de inflação baixa’’, justificou. O Ministério da Agricultura também teve de recuar de suas previsões iniciais, admitindo que o aumento real da renda agrícola, em dólar, foi de 6,33% para as 21 principais culturas agrícolas. A Fundação Getúlio Vargas estimou crescimento real da renda de 4,%, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) de 3,% e a Comissão de Agricultura da Câmara, de 5%.
Resolvidas as divergências quanto ao crescimento da renda agrícola, o deputado Hugo Biehl (PPB-SC) propôs uma discussão mais construtiva sobre a situação do pequeno agricultor no País. Ele observou que apesar do aumento médio de 5% na renda agrícola, alguns produtos de abastecimento interno tiveram queda de renda, como o milho, que caiu 11% em relação ao ano passado. ‘‘O índice só ficou positivo por causa de culturas como soja, café, cana e laranja’’. O secretário de Política Agrícola, Benedito Rosa, admitiu que algumas culturas como arroz, feijão, milho, tomate, sisal, amendoim e trigo tiveram quedas preocupantes de renda e algumas delas são típicas de pequenos produtores.
O assessor técnico da Comissão de Agricultura da Câmara, Renato Zandonadi, ressaltou que o grande gargalo da atividade rural brasileira é a incapacidade do setor de continuar investindo e incorporando tecnologia. ‘‘O bom resultado da safra no último ano se deve às condições climáticas que fizeram com que a produtividade aumentasse 10%, mesmo com uma queda de 3% na área plantada. Hoje estamos plantando a segunda pior área desde 1983’’, afirmou. O deputado Hugo Biehl disse que a perspectiva da agricultura é boa, mas a do produtor é a pior possível. ‘‘Quem plantou algodão, arroz, feijão, milho e trigo na última safra teve prejuízo de 7,6%, exemplificou.
Ele lembrou que enquanto há nichos de lavouras que estão bem, há setores que estão quase sendo excluídos da atividade. ‘‘Estamos em dois mundos, o do real e o da realidade. Enquanto o governo tem a visão de que a agricultura está dando certo, estamos ouvindo dos produtores que a situação não está boa’’. O coordenador de Política Agrícola do Ministério da Fazenda, Evandro Fazendeiro, fez questão de ressaltar que o ministério reconhece que qualquer salto que a economia brasileira der terá que contar com a contribuição do agribusiness e, por isso, ‘‘tem profunda sensibilidade para as questões do agricultura’’.

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