Renault tem prejuízos de quase R$ 2 bi em dois anos
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quinta-feira, 17 de abril de 2003
Vânia Casado<BR>Equipe da Folha 
Curitiba - A Renault do Brasil divulgou, ontem, balanço financeiro da empresa que aponta um prejuízo de R$ 1,413 bilhão no ano de 2002. Esse resultado somado ao balanço de 2001, quando o prejuízo foi de R$ 418,2 milhões, acumula um prejuízo de R$ 1,831 bilhão nos últimos dois anos. Se continuar com resultados negativos, em dois anos o prejuízo consome todo o capital social da empresa, prevê o economista José Pio Martins, vice-reitor da Unicemp, de Curitiba.
No relatório enviado ao Conselho de Administração, a Renault justifica que o prejuízo foi provocado pela elevação dos estoques de carros no final de 2001, que obrigou a montadora a liquidar a produção em 2002 a preços baixos. Outro fator seria a dificuldade de exportar carros para o Mercosul, por causa da crise argentina no ano passado. Sem poder exportar, os estoques subiram e a montadora continuou com a desova a preços abaixo do custo.
Mas o que pesou mesmo e provocou impacto negativo no balanço foi a dependência excessiva da importação de peças, analisou Martins. Com a importação de 40% das peças do carro e o dólar alto, só o custo de produção correspondeu a 95% da receita líquida obtida no ano passado. Ou seja, a receita operacional líquida atingiu R$ 1,51 bilhão e o custo com produção e serviços somou R$ 1,42 bilhão.
Segundo Martins esse custo está muito exagerado em relação ao tamanho da receita. Ele ressalta que sua análise leva em conta a interpretação dos números apresentados no balanço. O professor lamenta que a legislação brasileira seja branda com as empresas, cujas ações são de capital fechado. Nesse caso, elas publicam os balanços apenas para cumprir a lei, mas as informações contidas são insuficientes. ''Fosse num país mais desenvolvido, a empresa teria que públicar uma página inteira só para explicar o motivo do prejuízo'', comparou.
Segundo Martins, a preocupação é que o prejuízo superou a metade do capital social da empresa, avaliada em R$ 3,2 bilhões. ''Se fosse empresa de capital aberto, as ações simplesmente despencariam no mercado'', disse.
O economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Cid Cordeiro, minimizou o impacto do prejuízo, alegando que há alternativas para a montadora. A Renault começou a operar no Paraná em 1997 e esperava atingir um ponto de equilíbrio no quinto ano de operações. Essa meta foi prejudicada pela retração no mercado interno e pela elevação do dólar.
O diretor do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, Núncio Manalla, acredita que o quadro de prejuízos da Renault poderá ser revertido se a montadora atender a reivindicação dos trabalhadores de elevar a nacionalização das peças. Outro fator de otimismo, segundo o sindicalista, será o lançamento do novo carro de padrão exportação, que deverá alavancar as vendas no mercado externo. A Renault não quis comentar o balanço.


