Remessa de lucro para exterior bate recorde
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2006
Ney Hayashi da Cruz<br>Folhapress 
Brasília - Nunca as multinacionais instaladas no Brasil renderam tantos ganhos para suas matrizes como em 2005: as remessas de lucros e dividendos para o exterior somaram US$ 12,686 bilhões, o valor mais alto desde o início da série de dados calculados pelo Banco Central, iniciada em 1947. Trata-se de crescimento de 72,9% em relação ao resultado de 2004. Os números não impediram, porém, que as contas externas brasileiras encerrassem o ano passado com saldo recorde.
Em 2005, foi de US$ 14,199 bilhões o saldo das transações correntes, conta que inclui a balança comercial (exportações menos importações), a balança de serviços (gastos com viagens, pagamento de juros e remessas de lucros, entre outros) e transferências unilaterais (dinheiro enviado ao Brasil por residentes no exterior, e vice-versa). Foi o maior superávit já registrado desde 1947. Em dezembro, o superávit ficou em US$ 570 milhões.
O recorde foi alcançado mesmo com a queda de 15,9% sofrida pelo dólar em 2005. A alta do real joga contra o equilíbrio das contas externas, pois barateia bens e serviços que vêm de outros países, resultando em maiores remessas de recursos para o exterior. Até agora, porém, o forte crescimento da economia mundial, que favoreceu as exportações brasileiras, tem compensado parte do efeito da valorização do real.
Com a valorização cambial, fica mais vantajoso o envio de dividendos para o exterior, pois um mesmo lucro em reais permite a compra de um volume maior de dólares. E as viagens internacionais também ficam mais baratas.
Já a queda do dólar, para o economista, é reflexo dos elevados juros praticados no Brasil, que acabam por atrair um grande volume de capital para o país e, assim, distorcem a taxa de câmbio. Falta um pouco de bom senso ao Banco Central. A política de juros é uma barbaridade, diz Paulo Nogueira Batista Jr., professor da Fundação Getúlio Vargas.
Segundo estimativa do FMI, a economia mundial cresceu 4,3% no ano passado, o que ajudou as exportações brasileiras a registrar um aumento de 22,6% em relação a 2004. O Brasil, por sua vez, cresceu pouco mais de 2%, segundo projeções do mercado financeiro, e essa desaceleração ajudou a fazer as importações apresentarem uma elevação de apenas 17%.
Ajuste - O economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, diz que o Brasil realmente fez um ajuste externo espetacular, mas ele está muito longe de estar completado. Ele cita como ponto positivo o fato de o país não depender mais de grandes volumes de capital externo para financiar o déficit em transações correntes que o país tinha até 2002, mas, assim como Batista Jr., diz que esse ajuste só irá se sustentar se a valorização do real for contida.
Em 2005, o saldo em transações correntes ficou positivo pelo terceiro ano seguido, mas deve começar a perder força daqui para a frente. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a esperada recuperação da economia brasileira deve provocar um aumento mais forte nas importações neste ano. A projeção do BC é que as importações cresçam 17,4% em 2006 e cheguem a US$ 89 bilhões. Já as exportações devem aumentar somente 5%, para US$ 124,5 bilhões. Confirmadas as estimativas, o superávit em transações correntes deste ano seria de US$ 6,1 bilhões.


