Brasília Empresas estrangeiras que operam no País estão acelerando a remessa de lucros e dividendos para suas matrizes e o pagamento de dívidas em moeda estrangeira. Com isso, fizeram com que a conta de entrada e saída de capitais fechasse abril com déficit de US$ 1,4 bilhão. O saldo ficou negativo apesar de o Brasil haver recebido US$ 3 bilhões em investimentos diretos, um recorde para o mês. Considerando todas as transações, inclusive as comerciais, o resultado de abril foi positivo em US$ 757 milhões. É também um recorde para o mês, mas o resultado ficou abaixo do US$ 1,3 bilhão esperado pelo governo. Para este mês, a expectativa é de um superávit de US$ 400 milhões.
A saída de dólares em abril surpreendeu os técnicos do Banco Central. O movimento é motivado por uma combinação de fatores: valorização do real frente ao dólar, crescimento da economia e a expectativa de que o ciclo de alta dos juros está chegando ao final. As remessas de lucros e dividendos para o exterior somaram US$ 1,3 bilhão, 56% a mais do que os US$ 823 milhões remetidos em abril de 2004. Em maio, essas remessas permanecem elevadas e acumulam US$ 813 milhões, em 19 dias. Já os gastos com juros totalizaram US$ 1,6 bilhão em abril e, em maio, estão em US$ 869 milhões.
Dos US$ 3 bilhões de investimentos estrangeiros diretos ingressados em abril, quase metade US$ 1,384 bilhão foi referente à operação de troca de ações entre as cervejarias AmBev e a belga Interbrew. Em maio, os investimentos diretos acumulados eram de US$ 350 milhões e a expectativa do BC é encerrar o mês com US$ 700 milhões.
Mas a tendência de saída de moeda estrangeira para quitar dívida deverá se manter. Tanto é que o BC projetou uma taxa de rolagem inferior a 70% dos vencimentos ao longo de 2005. ''Em abril, a taxa média de rolagem das dívidas que estão vencendo foi de 50%. As empresas, principalmente as do setor exportador, estão bastante capitalizadas e pagando as dívidas que têm lá fora'', argumentou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.
Para o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, o resultado das transações correntes e da conta capital e financeira sinaliza antecipação de um ajuste gradual por conta da expectativa de que os juros no Brasil vão parar de subir e, em seguida, entrarão numa trajetória de queda. Isso deverá ter impacto na cotação do dólar, que tende a aumentar, e será reforçado pela elevação de juros nos Estados Unidos.
''Nesse cenário, não faz sentido a empresa esperar para trocar os reais por dólares. Hoje, com a mesma quantidade de reais, ele compra mais dólares. O raciocínio é o mesmo de quem quer viajar para o exterior. É melhor aproveitar'', diz. ''A valorização excessiva do real é temporária. Além disso, os EUA começam a oferecer remuneração maior para os investidores, o que estimula a compra de dólares'', diz o economista Roberto Padovani, da consultoria Tendências.

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