O relatório da Comissão de Análise do Sistema Hidrotérmico de Energia Elétrica, que analisou os motivos que levaram à crise de energia, isenta o presidente Fernando Henrique Cardoso de responsabilidade sobre o racionamento. ‘‘Não teria sido devidamente sinalizada ao presidente a possibilidade de um racionamento profundo, como o que o País atualmente enfrenta’’, diz o relatório da comissão, criada pelo próprio presidente para investigar as causas da crise.
O presidente da comissão e diretor-presidente da ANA (Agência Nacional de Águas), Jerson Kelman, afirmou que o fluxo de informações entre o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o Ministério de Minas e Energia e a Presidência da República foi inadequado para transmitir ao ‘‘alto escalão do governo, qual o risco e a severidade da crise que se avizinhava’’.
As deficiências de comunicação são atribuídas, principalmente, ao Ministério de Minas e Energia, que era comandado pelo ministro Rodolpho Tourinho. O ministro defendia a tese de que o PPT (Programa Prioritário de Termelétricas) teria condições de evitar uma suposta crise, mesmo que houvesse um crescimento do consumo superior ao previsto desde que a média de chuvas ficasse em, no mínimo, 85% do histórico de 70 anos.
No final de julho do ano passado, ao defender o programa de termelétricas, Tourinho teria relatado ao presidente e a representantes da equipe econômica que a probabilidade de chuvas era superior a 90%. O relatório da comissão diz ainda que o atraso na definição do plano de racionamento e disputas entre órgãos do governo foram os principais responsáveis pela crise de energia.
O presidente da ANA afirmou que o Ministério de Minas e Energia e a Aneel estavam cientes da gravidade da crise, mas que as ‘‘disputas dentro do governo’’ contribuíram para que nenhuma das iniciativas se concretizasse.
A falta de chuvas não foi a única responsável pela crise de energia que o País enfrenta. Segundo Kelman, a crise também tem origem no desequilíbrio entre oferta e demanda de energia, que foi agravada pelo atraso de entrega de obras programadas pelo governo.
Kelman citou os atrasos de Angra 2, Porto Primavera e o terceiro circuito de transmissão de Itaipu como motivos para o agravamento da crise. Caso essas obras não tivessem atrasado, o nível dos reservatórios do Sudeste e do Nordeste poderiam estar 15 pontos percentuais acima dos 32% verificados em maio deste ano.

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