Paris - O relatório Cyclope 2004, divulgado ontem, coloca em evidência, a partir da alta do preço das matérias-primas, o surgimento de novos gigantes econômicos, à frente dos quais está a China, além do Brasil, no setor agroalimentar, e a Rússia, no petroleiro.
Aço, borracha, petróleo, soja, frete marítimo. Em 2003, os preços de muitos mercados dispararam, uma tendência que continua em 2004. ''Trata-se de uma crise como as que acontecem a cada 25 ou 30 anos: no fim do século XIX, em 1921, em 1948-1950, em 1974 e agora'', comentou ontem, em entrevista coletiva, o economista Philippe Chalmin, coordenador do relatório 2004 sobre os mercados mundiais.
A China, ''o país do ano'', segundo o documento, é a principal causa do aumento dos preços. ''Há 20 anos, o crescimento estava garantido naquele país, graças a seus recursos naturais. Hoje, a China tornou-se estruturalmente importadora de matérias-primas. E isto vai durar'', previu Chalmin.
A China, maior produtor mundial de aço, têxteis, roupas, calçados, eletrônicos e brinquedos, tem um impacto nos preços mundiais do ferro, aço, dos metais não-ferruginosos, do algodão, lã, borracha, soja, sucata e frete marítimo.
''O mercado do frete ilustra esta extraordinária alta dos preços. Hoje, simplesmente faltam navios para transportar os produtos que a China importa, e muitas vezes o produto transportado é mais barato do que o frete'', comenta Chalmin.
Com a China, surgiram outros gigantes dos mercados de matérias-primas. ''A avalanche de petroleiras ocidentais para a Rússia é um sinal disso. A chegada de produtos agroalimentares brasileiros é outra'', afirma o economista.
''Grande exportador há décadas de café, soja e derivados, açúcar, suco de laranja e carne bovina, o Brasil reforça sua posição nestes setores e se torna também um importante fornecedor de frango, porco e frutas'', acrescenta.
A África continua no fim da lista e sofre uma ''maldição das matérias-primas'', segundo o Cyclope 2004. ''Nos mercados de matérias-primas, a África quase não existe, à exceção do cacau da Costa do Marfim e de Gana; um pouco de café e chá das colinas do leste da África; o algodão e pequenos metais da África do Sul; e do fosfato marroquino'', diz o relatório. ''Aí está uma das principais causas do problema africano: a dependência das matérias-primas não diminuiu, pelo contrário'', acrescenta o texto.

mockup