Algumas simulações acerca do novo ciclo econômico em gestação no Paraná, recentemente elaboradas pelo Ipardes, atestam a liderança dos ramos integrantes dos complexos metal-mecânico (sobretudo o parque automotivo), agroindustrial e infra-estrutural. A carteira de empreendimentos infra-estruturais (rodovias, ferrovias, modernização portuária, geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, telecomunicações, sistemas de água e esgoto, entre outros) somada aos projetos diretamente ligados à produção atinge US$ 20 bilhões, quando considerado um horizonte temporal de maturação entre um e cinco anos.
No entanto, o debate sobre a especialização desse abrangente e visível processo de transformação econômica têm sido realizado de forma extremamente superficial e pouco qualificada, sinalizando a acentuação da concentração na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), a partir da absorção direta de 65% do valor total dos projetos de investimentos privados anunciados entre janeiro de 1995 e agosto de 1997, com predominância do complexo metal-mecânico e especialmente das montadoras de automóveis.
Na tentativa de lançar alguns argumentos relevantes à discussão desse tema, é importante reconhecer que o segmento metal-mecânico exibe maior densidade tecnológica, padrão locacional concentrado e menor capacidade de geração de emprego por unidade de capital investido, aliás a grande pecularidade do padrão tecnológico nesta virada de século.
Em contrapartida, os empreendimentos agroindustriais, alguns projetos na área de bens de consumo não-duráveis ou intermediários - como bebidas, madeira e papel e papelão e as obras de infra-estrutura denotam maior grau de dispersão especial e maior propensão à criação de postos de trabalho (diretos e indiretos).
Essa tendência natural de interiorização de alguns ramos de atividade resulta não apenas da disponibilidade de matérias-primas, mas de atuação regionalizada das cooperativas e da perspectiva de constituição e/ou ampliação de grandes mercados regionais integrados com o interior de São Paulo ou com os países membros do Mercosul. Esta também condicionada à superação de um certo marasmo predominante em algumas áreas e ao resgate de uma ‘‘vontade industrializante’’.
Em paralelo, a ação indutora do governo estadual vem estimulando a formação e/ou consolidação de certos pólos regionais com a instalação de algumas empresas-âncoras, a exemplo da Tafisa no município de Piên, da Dagranja em União da Vitória, da Siemens em Irati, da Casa Blanca Forest na Lapa, e da têxteis Covolan, Acetatos Argentinos e Malharia Iracema em Prudentopólis. Tudo isso, sem contar a perspectiva de implantação de uma fábrica de pneus (grupo coreano Kumho) e de uma metalúrgica (Beta Sul) em Londrina.
Para se ter uma idéia de dimensão multiplicadora dessas iniciativas, basta verificar que o empreendimento da Casa Blanca deve gerar mais de 17 mil novos postos de trabalho (entre diretos e indiretos). Ademais, o grupo formado por empresários brasileiros, canadenses e alemães, adquiriu recentemente 70% do estoque de reservas florestais da empresa paranaense Trombini Papel de Celulose, para fazer frente à necessidade de produção de 340 mil metros cúbicos de painéis de lâmina de madeira orientada por ano.
De acordo com o que foi assinalado, sob uma ótica macroeconômica, é bastante provável a conformação de um parque capital-intensivo numa faixa territorialmente reduzida do sul do Paraná, polarizada por Curitiba, e de uma dinâmica mais dependente das inversões infra-estruturais e agroindustriais no restante do Estado. Poranto, o crescimento econômico prospectivo da RMC deve ser determinado pela variável investimento, enquanto a evolução do interior estará ligada à ampliação do emprego e da renda.
Essa hipótese fica mais clara quando se observam algumas inferências feitas a partir de dados brutos disponíveis em estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), resultando num coeficiente amplo de demanda de emprego indireto para cada posto de trabalho criado diretamente. Por esse exercício, destaca-se o agrobusiness, alcançando índice 66 para óleos vegetais, 36 para laticínios, 24 para abate de animais e 22 para fabricação de açúcar. O complexo automotivo registra coeficiente 19 para automóveis, ônibus e caminhões e 10 para peças.
Não deixa de ser uma constatação particularmente interessante no momento em que os resultados da Contagem da População, realizada pelo IBGE, referentes ao ano de 1996, destacam, para o período 1991-96, a combinação entre uma reversão do fluxo migratório ocorrido nos anos 70 e 80 do Paraná em direção às regiões de fronteira agrícola e uma acentuação da concentração na RMC e em algumas cidades-pólo. Esse último aspecto é consequência da continuidade da migração campo-cidade, impulsionada pela fragilização das atividades rurais, em decorrência da falta de uma política agrícola com horizonte de longo prazo.
O mais gritante, porém, é a enorme margem potencial de liberação de mão-de-obra do meio rural no Estado, fruto também da irreversibilidade da mecanização das colheitas de cana-de-açúcar e algodão. Segundo dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), a população agrícola dos Estados Unidos, França e Argentina representa, respectivamente, 2,9%, 3,7% e 10,8% do contingente total, contra 17,9% no Brasil e 22,1% do Paraná.
Dai que, a busca de atenuação dessa trajetória, ou ao menos de minimização de seus reflexos mais dramáticos do ponto de vista social, exige a sincronização e potencialização de algumas ações (públicas ou privadas) ao aumento da produtividade e à diversificação do complexo agroindustrial, com apreciável componente de modernização tecnológica e ganhos de eficiência e de escala.
Dentre elas, vale a pena sublinhar a revitalização da cafeicultura, em regime de adensamento de mudas, técnica desenvolvida pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e o programa estadual de resgate da contonicultura nas pequenas propriedades, que conta com o apoio da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Estado, Banestado, Banco do Brasil e com o envolvimento da Cooperativa Agropecuária Mourãoense (Coamo).
- GILMAR MENDES LOURENÇO é economista e coordenador do Grupo de Conjuntura do Ipardes

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