Regionalização da indústria no Paraná
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de outubro de 1997
Gilmar Mendes Lourenço 
Algumas simulações acerca do novo ciclo econômico em gestação no Paraná, recentemente elaboradas pelo Ipardes, atestam a liderança dos ramos integrantes dos complexos metal-mecânico (sobretudo o parque automotivo), agroindustrial e infra-estrutural. A carteira de empreendimentos infra-estruturais (rodovias, ferrovias, modernização portuária, geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, telecomunicações, sistemas de água e esgoto, entre outros) somada aos projetos diretamente ligados à produção atinge US$ 20 bilhões, quando considerado um horizonte temporal de maturação entre um e cinco anos.
No entanto, o debate sobre a especialização desse abrangente e visível processo de transformação econômica têm sido realizado de forma extremamente superficial e pouco qualificada, sinalizando a acentuação da concentração na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), a partir da absorção direta de 65% do valor total dos projetos de investimentos privados anunciados entre janeiro de 1995 e agosto de 1997, com predominância do complexo metal-mecânico e especialmente das montadoras de automóveis.
Na tentativa de lançar alguns argumentos relevantes à discussão desse tema, é importante reconhecer que o segmento metal-mecânico exibe maior densidade tecnológica, padrão locacional concentrado e menor capacidade de geração de emprego por unidade de capital investido, aliás a grande pecularidade do padrão tecnológico nesta virada de século.
Em contrapartida, os empreendimentos agroindustriais, alguns projetos na área de bens de consumo não-duráveis ou intermediários - como bebidas, madeira e papel e papelão e as obras de infra-estrutura denotam maior grau de dispersão especial e maior propensão à criação de postos de trabalho (diretos e indiretos).
Essa tendência natural de interiorização de alguns ramos de atividade resulta não apenas da disponibilidade de matérias-primas, mas de atuação regionalizada das cooperativas e da perspectiva de constituição e/ou ampliação de grandes mercados regionais integrados com o interior de São Paulo ou com os países membros do Mercosul. Esta também condicionada à superação de um certo marasmo predominante em algumas áreas e ao resgate de uma vontade industrializante.
Em paralelo, a ação indutora do governo estadual vem estimulando a formação e/ou consolidação de certos pólos regionais com a instalação de algumas empresas-âncoras, a exemplo da Tafisa no município de Piên, da Dagranja em União da Vitória, da Siemens em Irati, da Casa Blanca Forest na Lapa, e da têxteis Covolan, Acetatos Argentinos e Malharia Iracema em Prudentopólis. Tudo isso, sem contar a perspectiva de implantação de uma fábrica de pneus (grupo coreano Kumho) e de uma metalúrgica (Beta Sul) em Londrina.
Para se ter uma idéia de dimensão multiplicadora dessas iniciativas, basta verificar que o empreendimento da Casa Blanca deve gerar mais de 17 mil novos postos de trabalho (entre diretos e indiretos). Ademais, o grupo formado por empresários brasileiros, canadenses e alemães, adquiriu recentemente 70% do estoque de reservas florestais da empresa paranaense Trombini Papel de Celulose, para fazer frente à necessidade de produção de 340 mil metros cúbicos de painéis de lâmina de madeira orientada por ano.
De acordo com o que foi assinalado, sob uma ótica macroeconômica, é bastante provável a conformação de um parque capital-intensivo numa faixa territorialmente reduzida do sul do Paraná, polarizada por Curitiba, e de uma dinâmica mais dependente das inversões infra-estruturais e agroindustriais no restante do Estado. Poranto, o crescimento econômico prospectivo da RMC deve ser determinado pela variável investimento, enquanto a evolução do interior estará ligada à ampliação do emprego e da renda.
Essa hipótese fica mais clara quando se observam algumas inferências feitas a partir de dados brutos disponíveis em estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), resultando num coeficiente amplo de demanda de emprego indireto para cada posto de trabalho criado diretamente. Por esse exercício, destaca-se o agrobusiness, alcançando índice 66 para óleos vegetais, 36 para laticínios, 24 para abate de animais e 22 para fabricação de açúcar. O complexo automotivo registra coeficiente 19 para automóveis, ônibus e caminhões e 10 para peças.
Não deixa de ser uma constatação particularmente interessante no momento em que os resultados da Contagem da População, realizada pelo IBGE, referentes ao ano de 1996, destacam, para o período 1991-96, a combinação entre uma reversão do fluxo migratório ocorrido nos anos 70 e 80 do Paraná em direção às regiões de fronteira agrícola e uma acentuação da concentração na RMC e em algumas cidades-pólo. Esse último aspecto é consequência da continuidade da migração campo-cidade, impulsionada pela fragilização das atividades rurais, em decorrência da falta de uma política agrícola com horizonte de longo prazo.
O mais gritante, porém, é a enorme margem potencial de liberação de mão-de-obra do meio rural no Estado, fruto também da irreversibilidade da mecanização das colheitas de cana-de-açúcar e algodão. Segundo dados da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), a população agrícola dos Estados Unidos, França e Argentina representa, respectivamente, 2,9%, 3,7% e 10,8% do contingente total, contra 17,9% no Brasil e 22,1% do Paraná.
Dai que, a busca de atenuação dessa trajetória, ou ao menos de minimização de seus reflexos mais dramáticos do ponto de vista social, exige a sincronização e potencialização de algumas ações (públicas ou privadas) ao aumento da produtividade e à diversificação do complexo agroindustrial, com apreciável componente de modernização tecnológica e ganhos de eficiência e de escala.
Dentre elas, vale a pena sublinhar a revitalização da cafeicultura, em regime de adensamento de mudas, técnica desenvolvida pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e o programa estadual de resgate da contonicultura nas pequenas propriedades, que conta com o apoio da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Estado, Banestado, Banco do Brasil e com o envolvimento da Cooperativa Agropecuária Mourãoense (Coamo).
- GILMAR MENDES LOURENÇO é economista e coordenador do Grupo de Conjuntura do Ipardes


