Reflexo da nova Cofins na inflação é incerto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de janeiro de 2004
Adriana Fernandes<br> Agência Estado 
Brasília - O aumento da 3% para 7,6% da alíquota da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), a partir de fevereiro, é a nova ''incógnita'' para a inflação. A avaliação é do economista da MB Associados José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. ''É a grande dúvida para fevereiro: saber quem vai conseguir repassar os custos da Cofins para os preços'', avaliou, em entrevista exclusiva à Agência Estado.
Mendonça de Barros afirmou que o aumento da alíquota da Cofins, com o fim da cobrança cumulativa (em cada fase da cadeia produtiva), representará um aumento real de carga tributária. Com isso, subirá o custo das empresas, que vão procurar repassá-lo para os preços. ''A elevação da Cofins representa aumento de carga. Não é choradeira de empresário'', disse o ex-secretário, ressaltando que haverá aumento de custos, principalmente, dos serviços, matérias-primas, produtos importados e operações financeiras.
Segundo ele, é difícil fazer uma avaliação do impacto que a elevação da Cofins pode ter na inflação. Isso porque o aumento do tributo incide de forma diferenciada nos diversos setores da economia. ''É impossível prever. São milhares de casos'', comentou. O economista destaca ainda que a inflação deste início de ano está sendo pressionada pela elevação do preço de commodities no mercado internacional, principalmente petróleo (que afeta também os preços dos plásticos), aço e alguns metais.
Apesar dessas pressões, Mendonça de Barros avaliou que esse movimento é temporário. ''Temos uma barriga de inflação, mas esse movimento é temporário porque a demanda está fraca'', disse. ''O consumo está fraquíssimo.'' Por isso, ele acredita que o Copom deveria ter reduzido em 0,5 ponto porcentual a taxa Selic na sua última reunião. Ele não observa na economia um movimento de reposição forte de estoques e também não vê risco de inflação de demanda.
Mas ''há uma pressão inflacionária que vai além da sazonalidade do período'', avaliou o economista. No início do ano, é normal um movimento de alta por conta dos gastos com escola, material escolar, IPVA e IPTU. Também é normal, em razão da entressafra, o aumento de preços de alguns produtos, como o que está ocorrendo agora com o feijão. O excesso das chuvas de verão também pode levar a uma pressão de alta de hortigranjeiros.
A pressão das commodities, porém, não é sazonal. Esse aumento dos preços reflete o forte crescimento da China e a recuperação da economia norte-americana. ''São preços dolarizados. É difícil segurar esses aumentos porque representam aumento de custo real.'' Mendonça de Barros também destaca que tem havido um encarecimento dos fretes internacionais, o que representa um ingrediente a mais para o aumento de custos das empresas.
Para o economista, o repasse de custos para os preços de bens duráveis é menos sentido pelo consumidor, já que esses produtos na maioria dos casos são vendidos parceladamente e o aumento acaba ''se espalhando'' ao longo do financiamento. A queda nos juros do crediário, que tem ocorrido, também acaba ajudando a compensar o aumento dos preços.
No varejo de alimentos e material de limpeza, no entanto, o impacto no bolso do consumidor é mais direto, principalmente devido ao aumento dos preços das embalagens. ''Essa pressão de custo é real, não é fantasia'', disse.


