Reestruturação da Varig se arrasta há 10 dias
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sábado, 17 de junho de 2006
Nicola Pamplona<br>Agência Estado 
Rio de Janeiro - Cancelamento de vôos, ameaça de arresto de aviões, risco de ficar sem combustível: enquanto o processo de reestruturação da Varig se arrasta, a companhia aérea vem enfrentando cada vez mais dificuldades para manter as operações. O leilão da empresa completa neste domingo dez dias.
A companhia foi vendida para o Trabalhadores do Grupo Varig (TGV), mas a primeira parcela de US$ 75 milhões, prevista no edital para garantir um alívio no caixa da empresa, ainda não foi paga. A Varig tem até quarta-feira para convencer a Corte de Nova York de que o processo de reestruturação vai render resultados e, assim, evitar o arresto de 25 aviões por falta de pagamento do aluguel. Mas, mesmo sem perder as aeronaves, os passageiros começam a sentir os transtornos provocados pela falta de recursos. Em torno de 20 vôos são cancelados diariamente, com justificativas diversas, desde atraso na manutenção a mau tempo nos aeroportos.
A Varig tem se desdobrado para manter a regularidade das operações. A direção vem se reunindo diariamente para discutir a situação e resolver problemas imediatos. Todo incidente é motivo de especulações sobre a saúde financeira da empresa ou sua capacidade de manter as operações. Sexta-feira, um problema no trem de pouso de uma aeronave que chegava a Brasília levantou suspeitas sobre a manutenção da frota em tempos de dificuldades.
Especialistas no setor não acreditam que a empresa venha a tirar do solo aviões sem manutenção, tranquilizando os passageiros. Esse cuidado estaria por trás do cancelamento de alguns vôos, apesar de a Varig repetir que a suspensão diária é normal.
Mesmo assim, ela vem perdendo participação de mercado com rapidez impressionante desde o início da crise: segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Varig, que já teve mais de 50% do mercado, fechou maio na terceira posição, com apenas 14,4%.
A queda de 30,7% no número de passageiros transportados por quilômetro, na comparação de maio com o mesmo mês de 2005, é preocupante para uma empresa que, antes do processo de reestruturação já não conseguia pagar as contas com a receita das passagens.
Dia 11 de maio, a Justiça do Rio obrigou a BR Distribuidora a fornecer combustível mesmo sem o pagamento diário, e à vista, para que a empresa continuasse voando. A decisão perdeu a validade 11 dias depois, e cliente e fornecedor voltaram a negociar diariamente.
Taxas aeroportuárias e serviços de manutenção também estão em atraso e os credores começam a perder a paciência. A Infraero ameaça paralisar as operações da empresa se o repasse das taxas de embarque pagas pelos passageiros não for retomado. A dívida acumulada em tarifas de embarque chega a R$ 35 milhões. A falta de recursos para manutenção, por sua vez, levou a empresa a encostar 18 aviões de sua frota, que hoje soma 60 aeronaves.
Com uma dívida próxima dos R$ 7 bilhões em dezembro - quando a empresa divulgou seu último balanço -, a Varig precisa urgentemente de dinheiro para manter as operações. Tanto que a Justiça incluiu no edital de venda da companhia o pagamento em 3 dias de uma parcela emergencial de US$ 75 milhões. O TGV ainda não conseguiu os recursos, forçando a empresa a se virar como pode para manter as operações. Sexta-feira, um novo acordo foi fechado com a BR garantindo a entrega de combustível até amanhã, tendo como garantia os recebíveis de vendas de passagens por cartão de crédito.
Credores alertam que a situação tende a se complicar essa semana, caso a TGV não apresente o dinheiro. A expectativa é que o juiz responsável pela recuperação judicial da companhia, Luiz Roberto Ayoub, se pronuncie nesta segunda-feira sobre a proposta da TGV. Para piorar, as partes envolvidas no processo começam a soltar informações desencontradas, sinalizando um possível desentendimento.(Colaboraram Alberto Komatsu e Alessandra Saraiva)


