Redução do compulsório: Intenção é boa, os efeitos não
OPINIÃO
Redução do compulsório:
Intenção é boa, os efeitos não
Paulo Afonso Rodrigues
Injeção de R$ 3 bilhões referentes a redução de 65% para 55% no depósito compulsório à vista está distorcida tendo em vista que as reduções dos compulsórios que vêm sendo realizadas há seis meses na mesma proporção (10%) injetaram, cada uma, R$ 10 bilhões na economia.
A matemática é clara: se em 1 de setembro de 1999 as reduções de 20% para 10% nos depósitos à prazo significaram injeção de R$ 10 bilhões; se em 8 de setembro de 1999 a redução de 75% para 65% nos depósitos à vista significaram injeção de outros R$ 10 bilhões; e se em 14 de outubro de 1999 a redução de 10% para zero dos depósitos à prazo injetaram novos R$ 10 bilhões, perguntamos: como a redução anunciada esta semana de 65% para 55% no compulsório dos depósitos à vista significa apenas injeção de R$ 3 bilhões conforme anunciada na imprensa? Será que os depósitos reduziram drasticamente ou as informações estão altamente truncadas?
Tendo em vista um mercado altamente tomador de recursos financeiros, o Banco Central reduziu, em setembro do ano passado, os compulsórios dos depósitos à prazo dos bancos de 20% para 10%, injetando inicialmente R$ 10 bilhões na economia com o objetivo de redução dos juros ao consumidor.
Mas, esta redução não ocorreu de forma significativa. Os bancos alegaram que a iliquidez estava penalizando em demasia os custos finais. Uma semana depois o Banco Central acenou com nova redução, desta vez no compulsório à vista, de 75% para 65%, o que injetou outros R$ 10 bilhões no mercado. Já lembrávamos, nesta época, que o montante de R$ 10 bilhões eram recursos de extrema necessidade para o financiamento do custeio agrícola da safra de verão.
Contudo, o mercado continuou a não sentir mudança alguma. E os bancos, intransigentes em realizar reduções significativas no crédito, foram novamente beneficiados pelo Banco Central que tomou nova medida e reduziu os compulsórios dos depósitos à prazo de 10% para zero, injetando mais R$ 10 bilhões no mercado.
Convenhamos: matematicamente, o governo reduziu 20% do compulsório dos depósitos à prazo e 20% do compulsório dos depósitos à vista. Os recursos estavam mofando no Banco Central com rentabilidade zero. Mas, estes mesmos recursos, que totalizaram R$ 40 bilhões, não conseguiram reduzir as taxas de juros, tornando-se ainda maiores as volúpias dos lucros do sistema.
Neste mesmo contexto, o setor agrícola pasmem se sentiu premiado por ter conseguido a liberação de um montante de R$ 500 milhões para a comercialização da safra. Se eram necessários R$ 10 bilhões, anunciados em meados do ano passado, para o custeio da safra de verão, é de se acreditar que seriam necessários, pelo menos, R$ 3 bilhões para a sua comercialização.
Estamos diante de uma liberação de R$ 40 bilhões, acontecida nos últimos seis meses, para o sistema bancário a um custo zero. Com a taxa de juros no país fixada em 19% ao ano, nos deparamos, em uma análise simplória, com um prejuízo aproximado de R$ 4 bilhões se levarmos em conta o custo dos juros de 9,5% em seis meses.
Será que o país está em condições de desperdiçar R$ 4 bilhões? Se o sistema bancário não demonstrou intenção concreta em baixar juros, então estes recursos serviram para engordar os lucros históricos registrados nos últimos meses.
Só para exemplificar: a quantia de R$ 40 bilhões é equivalente à compra de quatro bancos Banespa, que obteve avaliação do mercado em R$ 10 bilhões para ser adquirido em leilão que será realizado em breve.
E fica novamente a questão: Será que o sistema bancário nacional está intencionado em, realmente, baixar os juros do crédito? É melhor não perdermos de vista os custos dos próximos dias.
PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro





