Os membros do ‘‘ministério do apagão’’ acreditam que uma redução de 20% no consumo de energia elétrica livrará o Brasil de apagões não-programados. Mas especialistas ouvidos pela reportagem dizem que, na atual situação dos reservatórios brasileiros, não há a certeza de que o plano de racionamento irá afastar o risco de o sistema elétrico entrar em colapso.
O governo demorou para iniciar seu programa de economia de energia. O nível dos reservatórios está abaixo do pior cenário até então imaginado. Não se sabe se o governo fez mesmo os cálculos certos. A margem de erro está pequena demais, qualquer deslize levará ao apagão descontrolado.
Essas foram algumas das respostas dadas por professores, engenheiros e representantes do setor sobre a eficácia da meta de redução em 20% definida pela Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica - o ‘‘ministério do apagão’’, comandado pelo ministro Pedro Parente (Casa Civil).
Seja por falta de chuva - como insistem os membros do governo - , seja por falta de planejamento e de investimentos em geração e redes de transmissão - como diz a maioria dos pesquisadores do setor elétrico - , as usinas brasileiras não têm água para produzir a eletricidade de que o país irá precisar neste ano.
Desde 1997, os níveis dos reservatórios das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste caíram ano a ano. O reservatório de uma usina é uma espécie de ‘‘poupança’’ de energia para o futuro. Foram feitos para que, em épocas de seca, as usinas pudessem usar a água armazenada para manter suas turbinas funcionando.
O consumo de eletricidade no Brasil cresceu, mas a capacidade de geração não seguiu o mesmo ritmo. Resultado: ano após ano a água dos reservatórios foi sendo utilizada para atender ao crescimento do consumo. Quando o país enfrentou a primeira estiagem severa, como a dos primeiros meses deste ano, os reservatórios já não possuíam água suficiente para garantir níveis mínimos de segurança para o sistema.
Em 1997, no início do período da seca, que começa no mês de abril, a água armazenada nos reservatórios do Sudeste correspondia a 88% de sua capacidade. Neste ano, os reservatórios começaram o período de seca com apenas 34% de sua capacidade total.
Se os reservatórios caírem abaixo de 10%, os operadores das usinas perdem totalmente o controle sobre a geração de energia elétrica: pode existir água para gerar energia num dia e, no outro, pode ser que as turbinas tenham de ser desligadas por falta d’água.
Técnicos do setor lembram que não há precedentes para avaliar a crise. Com tão pouca água, não há estimativa sequer de quando começa a entrar lama nas turbinas, situação em que as usinas simplesmente terão de parar de operar e esperar que os reservatórios acumulem água.
Esse seria o pior cenário possível: o sistema entraria em colapso, os operadores das usinas perderiam totalmente a previsibilidade da oferta de energia e apagões descontrolados surpreenderiam a população a qualquer hora do dia.

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